Como é a "conversa fraterna", a direção espiritual leiga da Obra?

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Esta é uma matéria que publiquei no Orkut (comunidade Opus Dei Brasil, que discute criticamente a Obra http://www.orkut.com/CommTopics.aspx?cmm=1757055) sobre o mais importante "meio de formatação" da Obra ("depois dos sacramentos, o meio de formação mais soberano do Opus Dei", segundo seu fundador): a "conversa fraterna", também chamada de "conversa semanal" (para os supernumerários, quinzenal), chamada ainda de "confidência". Não há numerário/a que não se angustie já nas vésperas do dia da semana em que deve ocorrer a (terrível) conversa: trata-se de um escancaramento da alma durante cerca de 45 minutos, com a obrigação de contar "com sinceridade selvagem" tudo que se passa em sua intimidade para o diretor. Esta prática é uma das primeiras surpresas do "plano inclinado" que se tem quando se apita: até então, o rapaz falava espontaneamente (meio espontaneamente) com o sacerdote na direção espiritual; poucas semanas depois de apitar, nunca mais terá direção espiritual com o Pe. Fulano, mas só com o diretor leigo e de acordo com um rígido sistema de controle. No Orkut, estavam discutindo abstratamente o tema e eu resolvi fazer este esquete, para visualizar como é:

Uma típica conversa fraterna de Zé (Z) com o Diretor (D)

[Quarta Feira, três da tarde. O Zé vai ao oratório preparar na sua oração mental (meia hora) as coisas que vai dizer na sua "conversa" com o diretor, que ocorre sempre às quartas às 15:30h. Nos primeiros 5 minutos da oração já despeja em sua agenda os problemas que teve com a virtude da pureza e, depois, passa alguns minutos angustiado, procurando outros assuntos para falar na conversa, mas não lhe ocorre nada. Distrai-se, lembra que tem algumas consultas a fazer para o diretor, anota-as, tenta voltar a concentrar-se na preparação da conversa, mas não consegue: sua tristeza é difusa e generalizada: não dá para expressar em palavras, mas ele mesmo não vê isto com clareza. Olha o relógio... 15:23h. Agora não tem jeito, vai ter que arrumar qualquer coisa para preencher o tempo da conversa. 15:30h Zé conclui a oração e sobe para "a direção", toca a campainha das luzinhas que há no batente da porta da sala do diretor e acende a luz vermelha - sinal de que o diretor não quer ser interrompido. Zé fica por ali, mas já não consegue pensar em mais nada para dizer na conversa: tudo o que ele quer é que a conversa passe logo e ele tenha mais uma semana livre dessa tortura mental... 15:37h o Zé toca novamente, acende a luz verde e o diretor diz: "Entre". Zé entra, sentam-se os dois em poltronas em ângulo de 90 graus, o Zé com a agenda e ar humilde. O diretor tenta quebrar o gelo e diz...).

D: E aí, como estão as coisas?

Z: Bem, mas esta semana voltei a ter tentações contra a pureza...

[deve-se começar soltando o "sapo gordo" e, por isso, é muito freqüente começar com o tema castidade, mesmo que seja para falar que naquela semana não ocorreu nada digno de registro. Na conversa, é preciso contar tudo e São Josemaría prescrevia contar "todas as coisas que mais te envergonham", "as coisas que você não gostaria que outra pessoa soubesse", "começando pelas pedras mais pesadas", "o sapo gordo que está dentro da alma" e que "se não se conta cria-se um segredo com Satanás" etc. ]

Z: ... mais coisa de imaginação, pensamentos que iam e voltavam e...

[na conversa o relato sobre a intimidade que envergonha deve ser concreto e não se deve nunca apresentar atenuantes, desculpas ou usar formas impessoais, nem sequer "a gente", mas EU, daí que Zé vai ter que concretizar]

Z: ... a verdade é que eu andei meio que sendo muito gentil com uma colega...

D: Como é o nome dela?

Z: ...não foi nada de mais grave... foi só imaginação e ela estava na aula com um sorriso bonito... e eu fiquei olhando... ela se chama Giselda

D: E não dá para você sentar num lugar onde a Giselda esteja fora do seu campo visual?

Z: Sim, farei isso... (diz o Zé, enquanto anota na agenda o conselho recebido). Eu fiquei olhando e no intervalo, como ela foi para o xerox, eu fingi que precisava de xerox também só para ficar na fila do lado dela. E aí, puxei conversa sobre coisas da Faculdade, nada de mais, mas a imagem dela ficou na minha cabeça e à noite vieram tentações, mas no dia seguinte antes da missa eu já me confessei.

Z: Quanto à vocação, eu estou muito convencido de que ela é um presente de Deus, mas às vezes, sei lá, eu acho que eu não estou correspondendo a Deus: eu acho que estou nos meios de formação com muita rotina... as normas andam meio que sem graça. Durante o terço eu fiquei pensando na prova que eu ia ter no dia seguinte...

D.: Então não reze o terço sentado, reza andando [nos centros, quando se reúnem para rezar o terço, cerca de metade dos numerários rezam sentados, enquanto a outra metade reza andando em círculos]

Z: Também eu não vivi legal a pobreza uma vez, porque num dos intervalos do recolhimento mensal do sábado passado eu saí com o Maurício, do centro do Itaim, e fomos na padaria e eu..., bem eu tomei um café e um pão de queijo... [Zé, já está com um certo remorso: esse ato era para ter contado antes do do terço, porque envergonha mais. No dia de recolhimento, vêm numerários de outros centros assistir ao recolhimento no centro do Zé]

D: Zé, isto é um mau exemplo que você deu para o Maurício e para todos. O dia de recolhimento deve ser um dia de silêncio absoluto e de oração e uma coisa dessas faz perder todo o fruto desse meio de formação. Além, é claro, de uma falta de pobreza: o critério, você sabe, cafezinho só se for por apostolado, nunca com outro numerário... E do que vocês falaram?

Z: O Maurício estava preocupado e perguntou do Francisco. E eu contei para ele que o Francisco não tá legal, que largou o emprego e que tá tomando aqueles remédios...

D.: Zé, por favor, de novo? Você e o Maurício sempre com essa amizade particular: no mês passado, ficaram falando de gente que saiu da Obra. Olha, Zé, numa dessas você perde todo o fruto do recolhimento e ainda dá um péssimo exemplo.

(...) [A conversa continua. Zé, agora, vai falar de seu apostolado]

Anteontem, o Rubens [aquele rapaz que Zé "trata" e que começou fazendo orientação científica no começo do ano e agora começou a direção espiritual com o Padre Alberto] me perguntou o que eu achava dos livros de um tal Pe. Cantalamessa...

D: Acho que é bom, ele é o pregador do Papa, mas diz para ele que é melhor ler os livros do Nosso Padre primeiro e depois ele lê outros autores espirituais. Ah, aquilo que você me consultou na semana passada, eu vi lá na delegação [sede do governo estadual] o livro do tal do Augusto Cury, sobre a inteligência de Jesus [que Zé tinha consultado para saber se era bom, pois o Rubens está lendo], não é bom não: é baboseira, auto-ajuda, água com açúcar, coisa pra carismático, mas não diz desse jeito para o Rubens, que ele pode estranhar. O melhor é você falar para ele te emprestar esse livro, para você ver como é que é e você empresta para ele o "Jesus Cristo" da Quadrante do Perez de Urbel (se ele comprar, melhor) e diz para ele que quando os dois acabarem vocês destrocam... Como ele não vai acabar as 500 páginas do Urbel nunca, o problema fica resolvido sem criar caso, esse rapaz tem que ir pelo plano inclinado. Aproveita e pede "emprestado" para ele também o livro do Cantalamessa...

Z: Mas, eu fui procurar sobre esse livro na Internet e comecei a navegar e...

D: Zé, de novo? Você sabe o critério: internet só o mínimo essencial e só para buscas pré-estabelecidas: é como o critério que o Pe. Fausto dá até na direção espiritual para cooperadores mais encaixados: "De cada 10 que navegam na Internet, 9 acabam se chafurdando na lama"...

Z: Não, não foi coisa contra a pureza não, aliás nem dá para entrar porque eu só acesso na sala dos alunos na Faculdade. É que minha mãe me falou de um tal site opuslivre e também da comunidade Opus Dei Brasil no orkut...

D: Você sabe que esses sites são de gente rancorosa, traidores! Você não lembra que o Padre [o Prelado, Javier Echevarría] falou numa tertúlia em San Sebastián: o perigo da internet não é só a pornografia e...

Z: Eu já confessei de ter entrado nesses sites...

D: Olha, Zé, você quer saber qual é o problema? Me diz uma coisa: como anda a tua mortificação?

Z: Normal, quer dizer, nesses dois dias mais frios eu não tomei o banho frio. Não usei o cilício uma vez nesta semana...

D: E a mortificação interior? da curiosidade? da soberba? Claro, você dorme na oração da manhã [a meia hora de oração que se faz nos centros das 6:00h às 6:30h], você deve lembrar que temos que dar bom exemplo para nossos irmãos. E como você acaba não fazendo oração, depois, não tem forças na alma para resistir...

[ao longo de toda a conversa, o Zé vai anotando humildemente na agenda e, claro, nunca pode contra-argumentar nada: seria mau espírito: os conselhos da conversa devem ser recebidos com "espírito sobrenatural" porque vêm de Deus].

...Mas não se preocupe, se você tiver que entrar na Internet, mesmo que seja para procurar Mecânica dos Fluídos, antes você reza uma Salve Rainha e pensa naquela parte que diz "Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei"

[e assim vão se passando os 40 ou 50 minutos da conversa. Depois de soltar todos os "sapos", Zé aproveita para fazer umas consultas]

Z: Eu estava pensando em ir almoçar domingo com meus pais

D: Quando foi a última vez que você esteve com eles?

Z: Exatamente há um mês.

D: Não convém criar hábitos nessas visitas à família de sangue, dá umas 2 semanas e aí você volta a me consultar.

Z: Tudo bem, mas é aniversário da minha irmã...

D: Não convém ["não convém" é a fórmula codificada para dizer "nem pensar"] criar expectativas principalmente nos aniversários e datas da família de sangue. Dá umas duas semanas: inventa qualquer coisa, que você tem que estudar pra prova na Faculdade e telefona na ante-véspera cumprimentando...

Z: Ah, acabei de fazer aquela correção fraterna no João. Que ele acende as velas do oratório na ordem errada.

D: Ah, boa! Aproveita e faz uma outra (eu não quero fazer eu mesmo, é melhor alguém que não seja do Conselho Local [o diretor, o subdiretor e o secretário: os três encarregados do governo do centro]): que ele perguntou na sala de jantar que remédios o Roberto e o Francisco e o Carlos estavam tomando. Diz para ele que por um lado não é para perguntar dessas coisas: deixa cada um tomar os remédios que precisa, tanto mais que ele devia ter reparado que era tarja preta: e que Nosso Padre sempre nos ensinou a "estarmos nas coisas de nossos irmãos" e que ele deve reparar que esses irmãos nossos estão precisando de orações, pois estão sendo atendidos pelo Dr. Alec [o numerário psiquiatra que vem do Uruguai atender os numerários doentes do Brasil].

Z: OK, Pax!

D: In aeternum! [Paz - In aeternum - A paz - Para sempre, é o cumprimento interno de membros da Obra]

[Zé desce até o oratório para fazer o que está mandado: agradecer a Deus pelos conselhos da conversa, agradecer a Deus por este meio de formação que é o mais eficaz para que ele aniquile o seu eu e se torne Opus Dei. No oratório, Zé não consegue evitar umas lágrimas, mas consola-se pensando no que foi dito no recolhimento passado: a humilhação lhe serve para identificar-se com o espírito da Obra. Em todo caso, Zé está aliviado, o pesadelo desta quarta passou: agora só na quarta que vem... No dia seguinte, tendo passado o caminho todo para a Faculdade pensando em como evitar a Giselda, decide fazer hora e tomar um cafezinho na cantina para chegar atrasado e assim não ter que dizer nem bom-dia para a moça. Durante a aula, sentado no fundão, por questões de campo visual, não consegue se concentrar na aula, passa o tempo todo testando se ela está realmente fora de seu campo visual... Na quarta seguinte, se for sincero, dirá que pôs em prática o conselho da conversa, que não viu a Giselda, mas passou o tempo todo pensando nela, em como evitar pensar nela...)

Augusto T. P.