Um pouco de mim

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Por May875, 29.12.2014


Fui do Opus Dei durante o período de 2005 a 2010, no próximo 19 de março fará cinco anos que deixei a Obra. Já se passaram praticamente cinco anos, mas esse é um assunto que ainda me assombra, às vezes mais, às vezes menos. E sinceramente não sei o motivo de nos últimos dias ser de forma contínua. Talvez, porque enquanto estava na Obra eu tinha um motivo claro para fazer as coisas, e hoje minha vida carece de algum sentido. O fato é que lendo todos esses escritos e depoimentos, tantos com os quais me identifico, resolvi compartilhar minha dor e tentar alcançar algum tipo de consolo...

Confesso que algumas coisas me deixaram muito impressionadas, principalmente os escritos de Maria Del Carmen Tapia, ler seu livro me fez voltar alguns anos e recordar as leituras que fazia com as biografias de São Josemaria e dos primeiros membros da Obra. Como é lógico, não conheci o fundador, mas apesar de não ficar muito claro em suas biografias, imaginava que tinha um temperamento bastante difícil. E quando leio passagens que dizem respeito a isso, consigo imaginá-lo tal e qual é descrito. Penso que assim como a Igreja, a Obra é Divina, mas composta por homens, passíveis de erro. E é claro que existiram abusos, eram tempos fundacionais, mas isso não justifica tais atitudes.

Também me dói muito que a Obra não se responsabilize por isso, ou peça desculpas pelos seus atos. Eu mesma fui vítima dos interesses do Opus Dei. Enquanto podia trabalhar (fui Numerária Auxiliar), tive todo o tipo de auxílio espiritual que precisava. A partir do momento que adoeci, fui levada à casa dos meus pais, sem nada, sem emprego, com problemas psicológicos graves, necessitada de tratamento e quem teve que arcar com tudo isso foi minha família. Mas não é disso que guardo mais mágoa, o que machuca mesmo é ter escutado de uma Diretora que a Obra não abandona ninguém, que somos nós que abandonamos a Obra. Isso sim foi uma grande mentira.

Como ainda não havia feito a fidelidade, todos os anos no dia 19 de março eu renovava minha oblação até o próximo ano. Como eles mesmos gostam de dizer, era um contrato, eu tinha as minhas obrigações, e a Obra tinha as obrigações dela para comigo, entre elas, atendimento espiritual. Quando me deram a notícia de que não poderia mais continuar vivendo como Numerária Auxiliar, me disseram também que continuaria recebendo a formação, que sempre me foi muito cara. Pois bem, quando voltei para a casa dos meus pais, sempre tinha uma Numerária que me atendia, eu falava horas e horas sobre a minha dor, nunca concordei com a decisão que tomaram. Não sabia viver de outra forma, eu tinha passado toda a minha adolescência e juventude servindo o Opus Dei! Teria que começar tudo novamente, arranjar um emprego, estudar, voltar à uma sociedade à qual havia me afastado a muito tempo, e além disso estava doente. Foi um processo extremamente doloroso, na verdade ainda é, e no qual não tive nenhum apoio deles.

Dói pensar que escutava que “de cem almas, nos interessam as cem”, mas que após não ter renovado o “meu contrato” no 19 de março, toda aquela ajuda, que para mim era tão importante, simplesmente cessou. Porém, enquanto era moça de São Rafael, que dava esperanças de vocação, todas as atenções estavam voltadas para mim, era só estalar os dedos que a numerária que me tratava vinha perguntar se estava tudo bem, ou se queria conversar. Veja bem, não é dessa atenção que sinto falta, digo isso, para verem a hipocrisia na qual alguns estão metidos. Será que não é tão importante quanto uma possível vocação a alma de uma pessoa que já foi da família espiritual deles? Será que Deus também não vai pedir contas disso para eles? O fato é que a mensagem que a Obra passa é algo muito belo, e eu amei de verdade isso, passei muitos momentos felizes lá, outros nem tanto, as coisas não são tão bonitas quanto é pintado.

Outra coisa que sempre me incomodou foi o apostolado de amizade e confidência. Que tipo de amizade pode existir quando se faz uma lista de quem vai tratar quem em uma reunião apostólica? Ou quando se tem que entregar semanalmente uma agenda com teus planos apostólicos diários? A amizade não nasce de afinidades mútuas? De um sentimento de afeição, simpatia, ternura, de uma preocupação verdadeira pelo bem do próximo? Não do número de meninas que iam às meditações, ou se confessavam, ou apitavam. Essas coisas deixavam qualquer um travado, e dava um ar autômato a qualquer pessoa da Obra. Não obstante fiz muitos amigos estando no Opus Dei, e acompanho todos eles com especial carinho. Há também gente que é do Opus Dei, e aos quais sou eternamente grata e que ainda mantém contato comigo. Essas amizades surgiram sim de maneira espontânea, fruto de um verdadeiro amor pelo próximo. O que mais sinto falta é de poder compartilhar todo esse sofrimento que todavia, apesar do tempo, ainda não resolvi. Sinto que para seguir em frente, e principalmente voltar a relacionar-me com Deus, faz-se necessário por um ponto final nessa fase da vida.



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