Un ex-numerario brasileño

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Fui membro do Opus Dei de 1981 a 1997 na cidade de São Paulo, Brasil. Eu era numerário. (Estou tentando não me afetar com o que estou escrevendo. Mas basta olhar o tempo investido nessa experiência para se ver que passei MUITOS anos envolvido nisso. E isso é forte: dos 16 aos 34. Minha juventude inteira...)

Estou escrevendo porque acho que agora consigo falar do assunto. Após 7 anos. Agora que tenho 40. Há 7 anos sonho quase todos os dias com meus tempos lá. Escrevo porque quero fazer o que todos os que escrevem tentam: curar-me através dessa catarse...

Há 7 anos simplesmente deixei o centro onde morava e nunca mais me vi capaz de ler, contatar, falar sequer sobre aqueles tempos, exceto para minha esposa. Agora dei a mim mesmo o direito de falar sobre o tema – mas apenas uma vez.

Gostaria muito de me identificar e de falar os nomes. Mas alguma coisa está me impedindo. O fato é que aos 16 anos entrei para a Obra. Aos 17 fui morar no Centro de Estudos (porque já era universitário). Meu pai se opôs e estava recém recuperado de sua segunda operação no coração. Quando me mudei, ele nunca mais foi o mesmo. Meu irmão seguiu meu exemplo e saiu de casa para tocar sua vida. E o equilíbrio instável da minha família se quebrou para sempre. Minha irmã mais nova cresceu sem irmãos por perto.

Meus dois anos no Sumaré foram horríveis para mim, pois me sentia sozinho. Tudo era frio. Me lembro do dia em que um padre que morava por lá me sugeriu que me agasalhasse porque estava lívido.

Fui transferido para um centro para jovens na mesma cidade. Queria muito ir para outra, mas acho que era uma pessoa insegura e tristonha. Foi assim que fiquei por 9 anos por lá. Passei de ser o rapaz recém-chegado do Centro de Estudos para o mais velho que tinha que dar exemplo. Tive direito até a um quarto individual. Mas nunca tive a chance de ir para outra cidade, de ser de alguma forma reconhecido.

Mais tarde, me enviaram para um centro de gente mais velha. Aí eu era o mais novo. Toda a vivacidade, vibração e variação de pessoas novas (adorava fazer viagens para acampar, caminhar no campo, etc.) foram substituídas por um ambiente de pouca convivência, de pessoas meio passadas. E de gente esquisita. Também sempre fui muito de me sentir bem ajudando outras pessoas, tanto que me dava bastante prazer as idas àquela escola da Pedreira, no subúrbio da cidade. Enfim, ao chegar ao novo centro, no ano de 94 estava deprimido, triste, sentindo que não havia muito sentido para minha vida. Mas nunca me permiti colocar a possibilidade de sair do Opus Dei.

Em abril de 94 morreu meu pai. Em janeiro havia me mudado ao novo centro. Exatamente quando começava a me sentir com um mínimo de liberdade interior para me permitir sentimentos verdadeiros com relação a ele, ele morreu. Do coração. Na quinta feira havia me telefonado na empresa e eu o cortei, dizendo que depois ligava porque estava ocupado. No domingo, à tarde, me chamou o vizinho de meus pais para avisar. E eu não havia ligado para ele nesse meio tempo.

Em junho comecei a comentar aos diretores do centro que não conseguia cumprir tão bem minhas obrigações, as normas de piedade. Depois de algum tempo, me diagnosticaram uma depressão (quem falava comigo era um médico). Pela primeira vez, encontrei uma oportunidade de dar atenção às minhas necessidades: tomava Prozac e começava a sentir coisas estranhas. Uma espécie de falta de vontade de cumprir minhas obrigações e, ao mesmo tempo, uma necessidade de tratar de mim mesmo. Lembro-me que tudo começou durante a Copa do Mundo. Minha única motivação estava no trabalho. O resto, se misturava numa grande nuvem cinza.

Fui promovido, viajei para a Europa para fazer um curso de inglês. Havia aprendido a dirigir havia pouco.

Continuei tomando remédios em 94, 95 e 96 e 97! Quando minha mulher me conheceu, algum tempo após sair do Opus Dei, ainda tinha remédios em meu criado-mudo, porque o médico (diretor) havia diagnosticado (juntamente com outro médico espanhol da Clínica de Navarra) que deveria ter alguma instabilidade causada por algum processo químico. Deram-me remédios usados por pessoas com epilepsia.

Em dezembro de 1996 fui demitido: era visto como uma pessoa esquisita e difícil. Após três meses, apareceram duas oportunidades de emprego. Após consultar o diretor, decidi por sua orientação, pela oportunidade mais interessante: aquela que me levaria a viajar várias vezes para outro estado.

Naquele período, recomecei, aos 33 anos, a ter poluções noturnas e meus sonhos se povoavam por imagens sensuais. Como tinha que viajar várias vezes para outro estado, fiquei uma primeira vez num centro, depois no hotel 5 estrelas, juntamente com meus colegas de trabalho. Na terceira viagem, já fiquei sem muitos remorsos num hotel, uma vez que o havia feito outra vez. Assim fomos até setembro. Nesse período, tinha enormes dificuldades de cumprir as normas de piedade. Quando estava no centro, assistia à missa mas não me confessava nem comungava.

Alguma coisa acontecia comigo e não conseguia saber o que era. Minhas dificuldades em me ligar de novo naquilo que havia sido minha vida durante a fase mais adulta me surpreendia. Mas aquele pessoal ainda era minha família. No centro onde morava, havia uma pessoa com uma depressão tão profunda, que havia se tornado um gordo simpático, mas bastante alheio ao mundo, não o bastante para sentir uma profunda gratidão e fidelidade ao Opus Dei. Eu gostava dele, porque era simples. Havia outras pessoas de quem gostava mais ou menos.

Creio que meus sentimentos, ao não cumprir com as obrigações, ao assistir um programa na tv do hotel que era erótico, enfim... ao fazer as coisas que me davam vontade... era a de um menino travesso que, simplesmente, não conseguia se controlar.

Retornei de uma viagem em setembro. Lembro-me de ter chegado à hora da reunião de depois do jantar em que todos batiam um papo. Antes de eu jantar, o diretor me chamou em sua sala e me disse que, após discutir o tema com o diretor geral do Opus Dei no Brasil, tinham decidido me “dispensar da vida em família”. Estava “causando escândalo” ao numerário com depressão. Minha reação foi muito visceral. Aliás, tenho feito um trabalho danado para poder ouvir meus sentimentos, respeitá-los: é esquisito, porque parece que estou aprendendo a falar algum idioma desconhecido que é ao mesmo tempo familiar.

Naquele exato momento, a única coisa que pude fazer após ouvir que tinha até sábado (era quarta à noite) para me mudar (para onde, se passei minha vida inteira me esquivando de minha família?!), foi simplesmente responder que havia entendido. Saí da sala com passos trôpegos, um frio intenso dentro de mim.

Estava simplesmente pasmo. Na hora em que mais precisava de ajuda, em que pedia ajuda com meus próprios atos, era “liberado da vida em família”. E para onde iria, após tantos anos longe de minha família? Senti-me profundamente rejeitado. Não conseguia pensar em nada a não ser pegar minhas coisas e ir embora imediatamente. Arquitetei um plano.

No dia seguinte, pedi um carro emprestado na empresa (haviam me oferecido um dia antes), cheguei ao centro à noite, quando já dormiam, tendo o cuidado de deixar o veículo num estacionamento. Antes de me deitar, juntei todas as minhas coisas, aquelas que podia carregar. Acordei às 5 horas da manhã, levei para baixo as minhas coisas, trouxe o carro do estacionamento e fui embora.

Me sentia em plena estepe siberiana. Mas apenas uma coisa estava clara: se aquilo não era para “a alegria e a tristeza” da parte de lá, não seria da parte de cá. Só isso. Sem teorias, sem justificativas ou explicações.

A primeira noite foi a coisa mais terrível. Me hospedei em um hotel de quinta para sexta. Sexta à noite, fui para a casa da minha irmã no interior. Segunda de manhã, aos 220 por hora, fui ao trabalho e consegui que me mandassem para a empresa no outro estado. Uma seqüência de fatos me colocaram nos Estados Unidos uma semana depois por um período de 1 mês. A seguir, fui convidado a trabalhar no outro estado e minha vida tomou seu rumo.

Nunca falei à minha família que havia saído. Como disse, tenho sonhado com meus tempos por lá quase todos os dias. Ainda por lá, sempre quis que meu desenvolvimento profissional se desse sem nenhuma vinculação com o Opus Dei. Por isso, nem precisei me afastar de pessoas no meu dia a dia. Como odiava certo linguajar interno, as gírias e o espírito de grupinho, não foi difícil purgar meu vocabulário dos termos pouco usuais que usávamos por lá. Ainda freqüentei a missa por um tempo, cada vez com menos freqüência. Atualmente, simplesmente existo, sem existencialismo. Aguardo o momento em que esteja pronto para lidar com minha espiritualidade de novo.

O que quero? Simplesmente desejo viver e ser feliz. Disse, no começo, que esta seria minha última manifestação. Mas, ao escrever este relato, percebi que vou precisar me expressar mais algumas vezes até que esteja pronto a me separar desta pele que ainda está presa em mim. Queria muito ser feliz, viver minha vida. E é isso o que estou tentando. Aprendendo sentimentos que não experimentei, convivendo com pessoas que não permitia conhecer, gostando delas, gostando de mim.


EU, 23 de enero de 2005


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