Trechos da carta de demissão do Dr. H

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é impossível conjugar a vocação para o Opus Dei com o trabalho profissional de professor universitário

Caro Padre,

(...)

Em primeiro lugar, a quantidade de encargos internos (muitos deles inúteis, impostos somente para manter os numerários ocupados) que pela obediência vivi durante muitos anos era absolutamente incompatível com o meu emprego de professor universitário em “regime de dedicação integral à docência e pesquisa”. Eu não podia trabalhar mais de 3 horas por dia quando estava contratado e recebendo para trabalhar 8 horas. Mandar executar mais encargos do que a situação profissional da pessoa consegue dar conta (sendo que esta pessoa está obrigada pelo compromisso vocacional a obedecer àqueles que supostamente deveriam estar falando em nome de Deus) é como mandar roubar! Isto foi uma falta de justiça para com a sociedade brasileira que estava pagando o meu salário (...). Queriam que eu santificasse o trabalho sem trabalhar? Infelizmente, sei que episódios semelhantes aconteceram com muitos outros numerários no Brasil, durante muitas décadas, e o Opus Dei do Brasil continua não reconhecendo que tal conduta é moralmente ilícita. Dá a impressão de que, para alguns diretores da Obra, as leis da moral comum deixam de valer quando o Opus Dei é uma das partes envolvidas.

Em segundo lugar, a pobreza que pela obediência fui forçado a viver durante muitos anos era absolutamente incompatível com a minha posição profissional. Inclusive negaram-me diversas vezes que tirasse simples xerox! Como é possível pesquisar qualquer coisa sem tempo, sem instrumentos adequados e sem material por onde estudar? Além disso, colocaram todas as dificuldades para impedir que eu participasse dos congressos científicos (talvez por medo de que eu me desencaminhasse em contato com o mundo?). E o que me causa mais tristeza é que quando por obediência alguém comete um erro, a Obra não assume nenhuma responsabilidade, colocando toda a culpa em quem obedeceu. Assim, cheguei à conclusão de que em consciência não se pode nem se deve obedecer a pessoas que não assumem responsabilidade pelas conseqüências daquilo que mandaram. (...)

Dá a impressão de que a Obra tem medo da verdade e da propagação de idéias. Ouvi dizer que um aluno da Pedreira [escola de periferia, em São Paulo, dirigida pelo Opus Dei] teria morrido numa excursão. Ora, é perfeitamente normal que aconteçam acidentes. Apesar disso, quando perguntei sobre esse assunto num jantar no Centro, os diretores desviaram rapidamente do assunto (o que confirmou claramente a veracidade do boato). Por que não admitir a verdade? Afirmam, por exemplo, que muito poucos abandonam a vocação. Ora, dos oito da "minha turma", cinco, até agora, já deixaram a Obra! E a Obra utiliza de todos os meios para que isto não seja conhecido. (...)

Poderia se argumentar que, se vejo erros na Obra, deveria tentar consertá-la em vez de abandoná-la. Mas o problema é que a Obra não admite ter cometido qualquer erro, apesar dos meus insistentes pedidos para que se reconheçam os seus erros passados. No melhor dos casos, os diretores da Obra procuram jogar toda a culpa na pessoa que era diretor na época, sem procurar esclarecer a verdade. Isto elimina qualquer possibilidade de corrigi-la. Além disso, o que pode fazer um simples numerário? A maior responsabilidade pelas mudanças é daqueles que têm a missão de governo. Mas, ao que tudo indica, o Opus Dei do Brasil não pretende reconhecer um único erro sequer. (...)

Assim, não me resta outra opção exceto ir-me embora.

P.S.: Padre, queria só deixar registrado por escrito nesta carta que pedi de volta o meu velho carro (que deixei para o uso da Obra durante 13 anos) para que pudesse ir embora com um mínimo de dignidade. Parece que o L.E., diretor da comissão regional, quer devolvê-lo somente após um período de tempo não especificado a ser determinado por ele, porque o carro já estaria comprometido para o uso do Centro de Pacaembu. Ora, eu sou o proprietário legítimo desse carro e, segundo o Catecismo da Igreja e as leis civis deste país, reter uma propriedade alheia contra a sua vontade é crime e um pecado grave. Mas, evidentemente, nenhuma lei se aplica quando se trata do Opus Dei...