Ser filha de supernumerários

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Não encontrei nenhuma resposta aos questionamentos do Dimitry e, sendo ele, também, filho de um supernumerário, gostaria de registrar aqui algumas das opressões que a Obra provoca na vida daqueles que dela participam.

Sou a filha de um casal de supernumerários que entrou para o Opus Dei por volta de 1982 (acredito que no mesmo ano em que se casaram). Antes de completarem 30 anos, meus pais já tinham muitos filhos. Lembro-me que fora de casa meu pai sempre se orgulhava de dizer que tinha muitos filhos, mas em casa (e hoje sem que muito em função da rigidez que era a sua vida) era machista, autoritário e violento. As mães supernumerárias aprendem também a aturar a estupidez do marido compreendendo que aquilo se trata de uma mortificação.

Na infância, sofri muito com a falta de paciência de um pai de família que ganhava ainda pouco para sustentar as crianças que foram postas no mundo pela “vontade de Deus”. Lembro-me que ele chegava em casa sempre muito cansado e freqüentemente era violento conosco.

Desde aquela época a hora de ir a missa era como um castigo que o soldado paternal impunha aos filhos como uma obrigação. Sei também que meus pais freqüentavam os cursos da ADEF que ensinavam como educar os filhos (vejo que eles aprenderam bem rs). Como ex-freqüentadora e quase numeraria do Opus Dei sei também que e uma orientação da Obra levar as crianças para a missa como forma de ir acostumando os filhos a algo que posteriormente será sua obrigação. A minha primeira confissão com um padre (da Obra) foi tb quando eu era muito pequena.

Durante muito tempo meus pais foram à missa diariamente.

Hoje eu posso convictamente afirmar que a educação aos moldes do Opus Dei é traumatizante para qualquer criança. Concordo com o Dimitry que também deu seu depoimento de filho de supernumerário que sempre havia dinheiro para retiros e convívios, mas nunca para festas. Sem falar de outras restrições. Na minha adolescência eu usava roupas ridículas. Não podia usar blusas de alçinhas e etc...

Deixei de ir a muitas festinhas e ficava em casa amargurada, olhando pela janela os adolescentes que brincavam contentes no play do prédio onde eu morava. Ao invés de educar para a vida, os pais do Opus Dei acreditam que a proibição, a rigidez (a qual estão acostumados), e a autoridade pela autoridade (inclusive bater) são a melhor forma de proteger os filhos de um mundo exterior que eles temem. Afinal, apenas as pessoas que freqüentam o Opus Dei são pessoas de Deus.

Hoje vejo tb que eles são orientados a acostumar os filhos com a rigidez, os horários, os terços e as leituras (feitos em família) para que depois não seja um choque tão grande para os filhos a rigidez de uma vida de numerário.

Mas se tudo já era tão triste na infância, fica muito pior quando começam os primeiros beijos e o primeiro namorado fixo. Para exemplificar um caso bem especifico, vou contar como não me tornei numeraria e os obstáculos pelos quais passei para deixar de freqüentar o Opus Dei e, hoje, para me recuperar dos traumas que o Opus Dei deixa na vida de todos que por ele passam.

Primeiramente, queria deixar claro que existe de fato uma lavagem cerebral. Todas as palavras ditas em meditações, direções espirituais, retiros, leituras (e como eu li!) e nas falas dos pais supernumerários ficam retidas no nosso inconsciente e mesmo depois que deixamos de freqüentar o Opus Dei, elas dominam muitas de nossas ações causando-nos um mal incalculável.

Diferentemente dos numeraios, eu não me chicoteei nem usei cilício, mas apanhei muito do meu pai tanto fisicamente como emocionalmente. Vi o Opus Dei me separar, indiretamente, do rapaz que eu namorava e que ainda me ama, embora permaneça distante esperando pela minha recuperação psicológica.

Aos 17 anos eu era uma típica candidata a numeraria. Uma vez por semana tinha orientação espiritual com o padre, participava dos círculos, fazia convívios e retiros (inclusive na Casa do Moinho) e assistia evidentemente as meditações. Minhas amizades eram falsas. Meu único interesse era fazer apostolado. Lembro-me bem que estar no Centro do Opus Dei era um milhão de vezes melhor do que ficar em casa aturando a estupidez do meu pai (que sempre desligava a televisão quando aparecia uma cena de beijo, sexo e etc.. Fazendo com que víssemos o sexo como algo que não fosse normal... ou lindo... por mais que os livros da Obra vivam dizendo o contrario). No Centro eu era livre do meu pai e fazia tudo o que me pediam, pois me sentia uma pessoa boa. Quem não gosta de se sentir uma pessoa boa?

Mas me lembro que sempre tinha muito receio de me envolver demais.Tinha medo de que minha vocação fosse ser numeraria. Por isso, recusava alguns convites como jantar com elas, freqüentar MAIS vezes o Centro, etc...

Mas eu, como filha de supernumerários, e a primogênita, era também muito inocente, de boa aparência (no melhor estilo das numerarias), meiga, passiva, carinhosa... Ou seja... uma candidata em potencial. Alem de tudo, sempre fui uma pessoa muito vaidosa (embora não ostentasse isso na aparência) e sempre tive, como todos os jovens, vontade de fazer algo de grandioso, algo que, também, orgulhasse meus pais. Desde muito nova tinha um grande “espírito empreendedor”: algo que a Obra certamente procura.

A primeira vez que alguém veio dizer que eu tinha vocação para numeraria foi num convívio. Uma numeraria que eu nunca tinha visto ficou no meu pé durante todos os dias. Um belo dia ela quis conversar comigo pra saber como andavam os meus propósitos e os meus planos de apostolado. Lembro-me que tive uma idéia fabulosa de como fazer apostolado via correspondência com umas amigas que tinha conhecido fora do Brasil. Algo que eu disse pra impressionar que evidentemente não teria como por em pratica (e nem queria pagar esse mico). Mas colou! Afinal, enrolar uma numeraria não é tarefa difícil, acredite! Alguém que acredita piamente nas palavras de Escriva não vai duvidar da palavra de uma adolescente de 17 anos.

No mesmo convívio dei-me conta que meu chuveiro não esquentava. Eu era muito tímida e fiquei com vergonha de pedir pra darem um jeito. Quando a mulher veio me perguntar se eu tinha feito alguma mortificação, eu logo falei que tinha tomado banho gelado. Pronto! Ela logo disse: Você já pensou se não tem a vocação pra ser numeraria? Eu disse qualquer coisa que não me lembro, não comentei com ninguém o que ela havia dito e rezei pra que nunca mais me falassem aquilo.

Hoje sei que me mandaram praquele convívio já me cotando como a próxima candidata a numeraria. As conversas que as outras numerarias tinham no Centro comigo eram sempre do tipo “estamos com poucas numerarias aqui no centro, reze pra que apareçam novas vocações”, etc... Do Centro que eu freqüentava apenas eu e outra menina (que acabou apitando) fomos ao convívio. Sinal de que já estavam de olho na gente. Ainda no convívio, as numerarias ficavam contando historias de como apitaram ou de como eram namoradeiras e normais antes de apitarem e mesmo assim foram chamadas por Deus....coisas pra encucar a gente!

Nessa época eu já tinha “ficado” com alguns meninos, mas raramente falava pra numeraria com quem eu conversava. Ela havia sido a escolhida pra me acompanhar (apesar de ser tb muito nova) porque me conhecia desde que eu ainda freqüentava o clubinho e ela ajudava com as crianças antes mesmo de apitar.

Quando essa numeraria disse que Deus tinha dito em oração pra ela que eu tinha vocação pra ser numeraria eu estava numa época de ter abraçado todos os ensinamentos da Obra. Lia todos os livros, achava que todos deveriam ir para a Obra, que a Igreja toda deveria ser a Obra, cumpria minhas obrigações e começava a pensar se eu não tinha vocação pra ser supernumerária.

Mas ela insistiu que eu tinha a tal da vocação e disse que se eu deixasse de freqüentar o Centro era sinal de que eu estava fugindo da minha vocação. Fiquei desesperada! Passei dias e dias de imensa agonia. Sofria. Meu coração batia rápido e forte de ansiedade e medo. Chorei muito, implorando a Deus que aquilo não fosse pra mim. Foi horrível! Graças a Deus a tal numeraria foi chamada pra fazer um curso em outra cidade. Fiquei livre! Comentei com o padre com quem tinha direção, mas contrariando o meu interior disse com a maior normalidade. Primeiro falei das minhas rotinas, das mortificações e dos pecados (que pecados poderiam ter uma pobre garota de 17 anos que não fazia nada alem de rezar terços, fazer leitura, oração, minuto heróico, mortificação, leitura da bíblia ?.). Depois eu disse: “Ah! A A. falou que eu tenho vocação pra numeraria e pediu pra que eu falasse com o você”. Acho que ele ficou tão assustado que não disse nada...Apenas pra eu pensar no assunto.

Com a saída da A. do Centro... E também da diretora do Centro que deveria ser a terceira pessoa a saber do tal assunto, eu fui deixando de freqüentar aos poucos. Na mesma época, comecei a observar algumas incoerências da Obra como a diferença de tratamento que se tem com os meninos e as meninas desde da época do Clubinho (enquanto as meninas fazem artesanato e culinária, os meninos jogam bola e fazem competições cientificas). Essas divergências continuam depois, por todas as atividades da Obra.

Logo depois comecei a namorar e junto do namoro vieram também as leituras da Obra sobre a pureza e também a repressão dos meus pais que vigiavam o namoro.

(OBS: Os pais supernumerários possuem regras como proibir que seus filhos viagem com os namorados mesmo que o destino seja a casa de um parente e vivem dizendo frases amedrontadoras sobre pureza, inferno, consciência, confissão, etc...)

Deixei de freqüentar o Centro tb porque precisava estudar pra passar no vestibular já que tinha escolhido um curso dos mais concorridos. Como eu havia aprendido a ter disciplina com as minhas tarefas, não foi difícil estudar. Aos poucos, meu namorado foi abrindo a minha cabeça e fui desenvolvendo um inteligente pensamento critico sobre a Obra, atitude que o “nosso padre” tanto dizia que era ruim.

Aos poucos, meu namorado foi se revelando uma pessoa fantástica. Como homem inteligente, ele se negou a participar de qualquer atividade do Opus Dei .

Deixei de freqüentar e como já era de conhecimento coletivo que eu estava namorando e que o namoro tinha cara de que ia acabar em casamento...Ninguém nunca mais me perturbou...Muito raramente me ligavam pra saber se EU AINDA ESTAVA NAMORANDO. ( a prova que não estavam ligando pra minha formação espiritual, mas apenas se eu iria apitar ou não).

Mas quando deixei de freqüentar a obra, tive que matar o leão que era o pai furioso que temia que a filha se afastasse de Deus (afinal, ele recebeu durante aos a formação da Obra. Basta ler Caminho, Sulco e Forja pra entender resumidamente o espírito da obra e toda chantagem emocional). Na época, fiquei sem dinheiro e passei por inúmeros problemas que não vou detalhar aqui. Com muita luta, me revoltei contra meus pais e aos poucos deixei também de freqüentar a missa – o que diferentemente do que diz a Obra, não faz de mim uma pecadora, uma pessoa afastada de Deus, alguém que por não estar próxima a Deus apenas se aproximara de pessoas ruins (vide Sulco).

Tudo mentira!!!! Pura manipulação!

Mas durante muitos anos e leituras, nos, os filhos de supernumerarios e freqüentadores da Obra, tb somos levados a acreditar que fora da Obra seremos tomados pelo Diabo, que temos que lembrar que o inferno existe, que nossa vida será uma desgraça, que não devemos fugir de nossa Vocação ou jamais seremos felizes, que se amamos a Deus temos que sofrer por ele, que temos que Amar a cruz, que temos que amar ao próximo através do apostolado, que nossos namorados não nos respeitarão se não formos puras, que vão nos abandonar, que serão péssimos maridos e homens infiéis se não tiverem a orientação (broxante!) de uma direção espiritual, que serão homens estúpidos e violentos.....Enfim...Que nossa vida vai ser uma merda, que vamos quebrar em pedacinhos que jamais poderão ser unidos novamente, que o Amor apenas será amor se for sacrifício...E que a fidelidade seria algo difícil de ser vivida e não ser dentro da Obra...Que se não casar virgem você será eternamente infeliz.E quando casar terá inúmeras restrições se você realmente teme o inferno e ama a Deus.

Todo esse “mundo” de restrições enche a nossa cabeça de traumas e medos. Preferíamos mil vezes namorar um freqüentador da Obra, mas todos parecem bobos, tímidos, chatos e absurdamente caretas, disciplinados. No meu caso, durante todo o namoro eu vivia com esses medos e traumas na minha cabeça que me impediram de ser feliz...Traumas que qualquer membro da Obra chamaria de peso na consciência, mas que na verdade foi provocado pelo medo. Sim, temos medo, inclusive de criticar o Opus Dei...Porque de amigos, agora somos os “inimigos”...E eles dizem que somos pessoas “rancorosas”. Mas como não sentir uma imensa indignação quando percebemos que todo o sofrimento que passamos dentro da nossa casa foi provocado pelas palavras da Obra? Como não me indignar quando sei que os traumas que a Obra me causou me impediram de confiar o amor a um homem que no final mostrou-se ser muito mais digno do que qualquer pessoa que eu conheci nessa vida, mas que não seria o homem ideal porque não era católico ou poderia ser violento?

Durante 3 anos fugi das centenas de livros da Obra que estão distribuídos pela minha casa, pois tinha medo que um daqueles exemplares me chamassem de pecadora e me dizem temer novamente a companhia de pessoas inimigas. Mas depois de ter me afastado do meu namorado porque no fundo temia que ele fosse o inimigo, voltei a me debruçar sobre as frases do “nosso padre” e todos os autores da Obra para que, lendo novamente com os olhos de uma pessoa que percebe a manipulação e a influencia negativa que tais palavras tiveram sobre a minha vida, tento agora entender quem sou eu, que pensamentos são autenticamente meus, que atitudes ruins eu tomei na minha vida por causa dos ensinamentos e dos medos que tais palavras me provocaram. Enfim, decidi enfiar a cara no que me deixou traumas pra me auto analisar.

Aos filhos de supernumerarios, deixo o conselho: não temam. Ao se afastarem, enfrentem seus medos, não se esconda.

Uma coisa que eu aprendi nesses anos todos com pessoas que nunca foram da Obra é que precisamos acima de tudo ter caráter e humildade. Que não somos donos da verdade. Ninguém é dono da verdade! E que as amizades verdadeiras são desprovidas de qualquer interesse.

Aprendi que o amor verdadeiro não pode ser dolorido, mas, sim, uma doce e leve alegria. Que temos que amar a vida...Que a morte tb faz parte...E podemos viver sem temer. Que quando encontramos alguém que nos ama, temos que entregar nosso coração...E que ser fiel não pode ser um sacrifício, mas sim algo que vem de dentro, espontâneo e lindo como uma rosa.

Se ele for sacrifício e mortificação, então não será amor.

E se a nossa vida não der certo, não foi porque nos afastamos da Obra, ou porque nos tornamos o “inimigo”, ou porque não ouvimos nossa “consciência”, ou porque nos afastamos de Deus e de nossa vocação...se passarmos por problemas, por momentos ruins, por dias de tristeza, isso acontece porque somos humanos, porque falhamos, porque vivemos e porque nos expomos.

Se ficarmos trancados numa bolha de vidro cobertos de mentira, com amigos falsos e achando que estamos no meio do mundo...estaremos perdendo grande parte da vida e a mais importante das conquistas do homem:a liberdade critica.

E fico triste por saber que eu poderia muito bem ter me tornado uma numeraria sem saber que o cilício e a disciplina são uma pratica comum e diária. Na minha opinião, esse ocultismo todo denota uma falta de caráter.

Se eu tiver escrito alguma mentira peço que me refutem livremente. Apenas hoje consigo criticar a Obra sem peso na consciência e em nada justifico a sua existência.

Desejo felicidade a todos que escolheram um outro caminho e coragem aqueles que desejam trilhá-lo, mas têm medo...Muito medo.

Sugiro, tb, um espaço no site onde se possa refletir sobre cada ponto de alguns dos principais livros do “nosso padre” como Caminho, Sulco e Forja para que possamos desconstruir o discurso e, assim, entender melhor de que forma podemos superar o afastamento da Obra sem traumas, sem sentimento de culpa, sem medo de ser FELIZ!


Att.,

Eu