Nota de esclarecimento: por que saí do Opus Dei?

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Mail que enviei para amigos e conhecidos em 16-09-03

Queridos(as) amigos(as),

Muitas pessoas têm me perguntado porque saí do Opus Dei (depois de tantos anos...), sendo algo tão bom e querendo eu continuar a trabalhar pela Igreja. De fato o Opus Dei é bom para muitos que se aproximam dele. E isso faz com que os que pertencem a esse grupo dos que são ajudados pela Obra não entendam o que acontece em casos como o meu. Pois, para muitos outros (sobretudo numerários), a vida dentro do Opus Dei acaba por ficar insustentável.

A pena é que tudo isso poderia ter sido evitado. Há muitos membros do Opus Dei que pensam exatamente assim, mas não saem por acharem que essas graves disfunções do governo da Obra no Brasil vão se resolver no futuro... Eu também acho, só que no meu caso (como no de tantos outros...), as mínimas condições para continuar esperando esse dia não foram oferecidas...

Alguns conhecidos até me perguntam se continuo católico! Sim. Amo a Igreja e o Opus Dei dos escritos do Fundador. De diversos modos levei muitos a amarem a maravilhosa doutrina de amor, grandeza, liberdade etc. que há nesses textos. Acontece, porém, que isso é apenas o que se apresenta quando alguém se aproxima da formação da Obra, e, enquanto não é posto efetivamente em prática, após essa fase inicial, tudo isso não passa de propaganda enganosa, na medida em que, para muitos numerários, o Opus Dei no Brasil, tem sido o avesso dos escritos do Fundador. No dia em que forem postos em prática causarão a revolução com que S. Josemaria nos fez sonhar.

Passou muito tempo desde a minha primeira comunicação para vocês e o propósito de prestar este esclarecimento foi ficando cada vez mais em segundo plano frente às inúmeras ocupações de meu trabalho e do cuidado de meus familiares. Decidi fazer esse comunicado agora, porque, infelizmente, vêm me chegando ao conhecimento sinais de que meu silêncio vem sendo sutilmente explorado de forma a apresentar uma versão distorcida dos fatos.

Um episódio a título de exemplo: outro dia, meu amigo X contou-me que um diretor nacional do Opus Dei no Brasil lhe dissera que: "o J. está fazendo muito mal para certa pessoa". Ao ouvir isto, imediatamente telefonei para a Comissão Regional do Opus Dei no Brasil e perguntei a esse diretor: "R, está aqui X dizendo que você me acusou de estar fazendo muito mal a certa pessoa. Gostaria que me dissesse quem é essa pessoa e que mal estou a fazer". A resposta do outro lado foi: "Ahhhn..., não lembro quem seria..."(!!).

No Opus Dei sempre se diz que das pessoas que se afastam nunca se fala nada para não as expor a constrangimentos (o usual, nesses casos, é “discretamente” indicar alguma pista estereotipada: reza por ele..., a soberba..., distúrbios mentais ou de conduta...). Mas, o fato é que, em muitos casos, se a verdade fosse conhecida, o constrangimento maior seria para os diretores da própria instituição. E, como todo mundo sabe, insinuações sutis e reticentes podem ser muito mais devastadoras do que a calúnia direta.

Um forte e agradecido abraço

J.

O porquê desta nota

No dia 4 de julho de 2003, entreguei minha carta de demissão do Opus Dei. Não foi uma decisão fácil, sobretudo quando se tem em conta que foram 35 anos como membro numerário da Obra.

A condição de "ex" é sempre incômoda: em todo caso, os que me conhecem sabem que sou refratário a ressentimentos. Se faço aqui esta nota é para prestar um esclarecimento ao qual meus amigos têm direito.

Uma pessoa entra para o Opus Dei (e eu não sou exceção) convencido de que tem uma vocação divina para isto: o sacerdote da Obra que atende a direção espiritual (conversa semanal com o sacerdote, na qual este orienta a vida espiritual do dirigido...) do rapaz que freqüenta o centro (casas do Opus Dei) encarrega-se de dizer-lhe (da parte de Deus) que certamente ele está chamado a ser numerário da Obra: isto é reforçado pelos numerários amigos do "vocacionado" e, se tudo corre normalmente, a pessoa acaba escrevendo uma carta pedindo a admissão à Obra.




Ao entrar para a Obra, a pessoa conhece de modo relativamente genérico a realidade da Obra e os compromissos que assume como numerário: entrega total a Deus que se concretiza em: renúncia ao casamento, disponibilidade total para os apostolados da Obra, compromisso de entregar integralmente seus proventos para a Obra etc. Estas renúncias são aceitas com normalidade porque a realidade que lhe é mostrada é uma realidade que entusiasma uma alma jovem e generosa: a Obra é de Deus e ele está se entregando a Deus; a Obra aparece aos candidatos à vocação como, digamos assim, "uma vertente séria da Igreja": gente preparada, culta, alegre e corajosamente comprometida com Deus (em contraste com a falta de compromisso de muitos católicos, com a mediocridade de tantos católicos). E com uma proposta fascinante: santificar a vida quotidiana, de trabalho profissional, ser santos no meio do mundo, com uma total liberdade e espontaneidade apostólicas.

Essa idéia genérica e difusa confronta-se com a realidade concreta. Produz-se um desajuste desconcertante quando a "vontade de Deus" vai sendo comunicada concretamente - quer coletiva, quer individualmente - a cada um pelos diretores.

(Um exemplo simples: a maioria dos numerários deve santificar-se em seu trabalho profissional externo (ou se são estudantes, no estudo), lugar onde devem fazer seu apostolado. Aí aparecem conflitos: ao mesmo tempo que o Opus Dei, para atrair vocações, apregoa a liberdade pessoal como valor fundamental (e há textos belíssimos de São Josemaría Escrivá, o fundador, a respeito); na prática, começam a aparecer inúmeras restrições e prescrições que apontam para o sentido oposto: medo e falta de liberdade).

Os diretores da Obra temem muito a Internet, a televisão, os livros, a mídia, as viagens de estudos e NÃO acreditam que a liberdade dos membros lhes permita fazer bom uso dessas e outras formas de presença no mundo, para santificá-lo.

Do mesmo modo, assistir à televisão num centro da Obra (a TV é mantida fechada a chave pelo diretor) restringe-se, quando muito, ao Jornal Nacional e a jogos de futebol importantes e a um filme de Vídeo Cassete por mês (devidamente "editado" por censores autorizados). Não se pode ler nenhuma publicação (livro, jornal, revista etc.) sem a prévia permissão da censura interna. Etc.

A Internet é percebida como uma ameaça: nunca se ouve em palestras do Opus Dei sobre a Internet a menor menção às inúmeras declarações do Papa sobre as maravilhosas possibilidades de evangelização desse meio, mas somente medo: medo da pornografia, do homossexualismo, por certo, mas (de modo não abertamente confessado) medo à informação que pode ser veiculada livremente, sem possibilidade de controle por parte dos diretores, que estão condicionados a colocar sob uma redoma as informações que podem ou não atingir os membros. Coisa possível até os anos pré-Internet, mas atualmente impraticável.

Esses e outros aspectos (que constituem a negação ou a perversão do próprio espírito do Opus Dei que fora anunciado ao ingressar) só vão sendo vivenciados pelas novas vocações gradativamente. A "tentação" de achar que "isso é um absurdo" é sufocada pela constante reiteração de que a Obra é de Deus e que o juízo dos diretores representa a Vontade de Deus. Junte-se a isto a impossibilidade prática de externar (e, à medida que passa o tempo, até mesmo articular) a menor crítica a atuação/interpretação dos diretores e teremos o quadro no qual se insere a minha carta de demissão que transcrevo a seguir (em tradução ao português), com pequenos comentários adicionais entre colchetes.

Carta ao Prelado (4-7-03)

Querido Padre,

Escrevo-lhe, com imensa dor, para comunicar que se tornou impossível para mim permanecer no Opus Dei e portanto peço a dispensa dos compromissos que assumi.

Sou J., pedi a admissão à Obra como Numerário há muitos anos.

De um modo progressivo ao longo dos anos o governo da Obra no Brasil parece-me que se converteu numa perversão do autêntico espírito de nosso santo Fundador. E o pior é que parece que os meios previstos para corrigir isto não funcionam aqui. Por exemplo, há um par de semanas proibiram o vogal de São Miguel [o ministro encarregado de assuntos dos membros da Obra] (e outros diretores da comissão regional) de atender-me e até mesmo de ouvir-me [a exclusão de qualquer crítica entre os membros tem por fundamento a possibilidade de qualquer membro poder dirigir-se aos diretores a qualquer momento; possibilidade que me foi negada]. O que eu procurava era simplesmente expor as dúvidas que eu tinha sobre meu caminho na Obra. Um dos diretores da comissão regional comunicou ao Pe. L, meu irmão, que me dissesse que eu não seria atendido pelos diretores da comissão.

Por outro lado, os fatos são muito claros: há no Brasil muitíssimos Numerários que deixam a Obra (tenho a impressão que são cerca de cinco que vão embora para cada um que fica!) muitas vezes não por culpa desses que vão, mas porque o ambiente interno tornou-se-lhes irrespirável: eu mesmo tenho sofrido uma série de incompreensões brutais, semelhantes às que sofreram centenas de irmãos meus, numerários do Brasil, que não tiveram outra escolha que a de escrever ao Padre cartas como esta.

Há no Brasil demasiados Numerários que se tornam doentes psíquicos e em alguns casos – eu bem sei! – certamente essas doenças poderiam ter sido evitadas: as vezes em que eu - em vão - tentei advertir os diretores da Comissão serviram somente como ocasião de sofrimento para mim.

Devido à falta de liberdade que nos é imposta no Brasil, a presença da Obra no apostolado universitário e cultural é hoje praticamente nula e os membros da Obra aqui são impedidos de ter iniciativas: por isso no Brasil não há nem universidades da Obra nem colégios, nem catedráticos (eu fui o único Numerário catedrático). O que os diretores nos permitem fazer (e de um modo absurdo e “clerical” nos é imposto) são coisas como vender livros da Editora Quadrante ou o Boletim Interprensa, iniciativas meramente profissionais deste ou daquele diretor, mas que se fazem passar por obrigação vocacional no Brasil.

São tantas as limitações indevidas impostas pelo governo da Obra aqui que há entre nós - e isto, como todo o resto, eu o digo na presença de Deus - demasiados Numerários tristes, que vivem sem ilusión[sem entusiasmo, sem pique] a sua vocação, que se tornou para eles uma rotina burocrática, sem a autêntica liberdade, proclamada por Nosso Padre [o Fundador é chamado internamente de Nosso Padre] , e que tanto nos encanta a todos.

Nestes últimos anos tenho podido verificar que há inúmeros casos muito dolorosos de gente que deixa a Obra ou fica doente por culpa dos governantes da Obra no Brasil. Um governo tão esquisito que anteontem ocorreu um caso particularmente gravíssimo: um Numerário que está há cerca de 20 anos na Obra (e que além disso - precisamente pela insensibilidade dos diretores - está a um passo daqueles problemas psíquicos de que falei acima) foi surpreendido com sua exclusão do centro em que morava sob acusações vagas e descabidas: nem sequer ouviram o interessado e simplesmente ordenaram-lhe que fosse embora imediatamente a um flat, a partir daquele exato momento da infame acusação. Hoje, três dias depois, informou-me ele que lhe vão pedir desculpas... [este caso, de uma brutalidade incrível, está tendo uma evolução tenebrosa e, de momento, não posso ainda dar nomes aos bois]

Não sei como são relatadas ao senhor todas essas coisas que me parecem desvios de nosso espírito. Em todo caso, são já centenas os que deixaram sua vocação de Numerários e, em muitos casos – sou testemunha –, trata-se simplesmente de injustiças e de uma mentalidade insensível do governo da Obra neste país. Seja como for, com os dados que tenho - e são muitos - considero que não posso continuar na Obra.

Pede sua benção

J.

Um par de perguntas e respostas

Pergunta
Desculpe se a pergunta é meio constrangedora, mas como uma pessoa leva tantos anos para perceber essas pretensas deficiências do Opus Dei? (G.M.M.S)
Resposta
De fato, pode parecer muito surpreendente. A verdade é que há, na Obra, um poderoso sistema interno de bloqueio de qualquer comunicação (pública ou privada) que possa, ainda que minimamente, parecer uma crítica à instituição. Por exemplo, ao incorporar-se definitivamente à Obra, assume-se o grave compromisso de nem sequer ouvir "murmurações" contra qualquer diretor. Além do mais, há uma proibição tácita de falar com as pessoas que saíram e "por caridade", na Obra, nunca se fala das pessoas que saíram da Obra: é como se nunca tivessem existido. Há cerca de cinco anos, comecei - por minha conta e risco - a acompanhar de perto alguns casos de numerários que deixaram a Obra e comecei a perceber injustiças muito graves que se cometiam contra essas pessoas. Esse processo foi se desenvolvendo num crescendo - cada vez mais estarrecedor - e, esgotadas todas as tentativas de correção, culminou na minha saída da Obra.


Pergunta
Se por uma pobreza mal entendida (ou avareza) os diretores da Obra impõem tantas dificuldades para que os membros exerçam com dignidade o trabalho profissional, como é que você conseguiu fazer sua carreira? (P.R.R.)
Resposta
A verdade é que se eu tivesse "obedecido" às normas e ordens que recebi no Opus Dei, não teria condições de exercer com dignidade meu trabalho de professor e de pesquisador. Resisti, por exemplo, quando tentaram me impedir de dispor de um quantia (um mínimo razoável) de meu salário para comprar livros, sem as incríveis burocracias internas para essas compras. Resisti, pois, antes de mais nada, eu tinha um dever de justiça para com meus alunos. Mas, essas resistências são muito desgastantes e ter de lutar para fazer valer cada ponto de elementar bom senso acaba por cansar...