Morrer em casa

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Eu sou um ex-numerário brasileiro que permanesceu 15 anos na Obra.

Leio sempre este site e também o site opuslivre do Brasil. As correspondências e os escritos publicados por vocês me ajudam bastante e me fazem sentir solidário com as pessoas que sofreram e sofrem com o modo de agir da Obra.

Sobre o tema "morrer em casa" li o que escreveram E.B.E.: La Obra como enfermidade (y a veces mortal), Nieves (22-05-05): La espada de Democles e o Correio de Carmen Charo (23-05-05): Quiero seguir ahondando en los problemas psíquicos.

Gostaria de contar, a respeito deste tema, o que aconteceu comigo.

Eu entrei para a Obra pressionado, como quase todos os que entram, e fui sempre infeliz, é claro que também tive momentos alegres e felizes, mas estes momentos foram ficando cada vez mais escassos a medida que os anos iam passando.

Nos últimos anos como membro da Obra a vida era para mim insuportável. Devido ao impasse de querer ir embora, mas não querer trair a Deus, comecei a pedir a Deus que me tirasse a vida.

Este meu pedido tornou-se uma obsessão e eu concentrava todas as minhas energias nele. Pensei em como poderia provocar em mim alguma doença mortal e também como poderia me matar. Eu não sei se chegaria a me suicidar, mas o que me lembro é que eu não suportava mais viver. Na minha angustia desafiava a Deus que me tirasse a vida. Nesta fase a minha vida espiritual praticamente morreu. Eu me lembro que nem mesmo chorar eu conseguia, eu me sentia como uma arvore seca e solitária.

Quando os diretores perceberam que eu era um caso perdido me deixaram ir embora dizendo que de fato eu não tinha vocação e se algum dia a tivesse tido eu a tenha perdido.

Desde a minha saída nunca mais tive contato com a Obra e nem eles quiseram saber mais de mim, se eu vivia ou tinha morrido, se estava bem ou mal. Para eles simplesmente deixei de existir.

A minha angustia continuou por alguns anos, mas pelo menos fora da Obra eu conseguia viver. Também aos poucos fui recuperando a minha vida social e espiritual.

A minha angustia dentro ou fora da Obra nunca foi a da condenação ou de ser infeliz sem a Obra, a minha angustia foi a de pertencer à Obra.

Ainda hoje, muitos anos após de ter deixado a Obra, tenho em ocasiões cada vez mais escassas pesadelos. Sonho que por alguma artimanha deles voltei a ser numerário e que fico desesperadamente tentando fugir e voltar a minha vida normal.

Hoje sou casado tenho filhos e sou muitíssimo feliz. Não preciso da Obra para nada.


RUBIO, 1 de junio de 2005


Original