Depoimento do Prof. Dr. R.R.M. (numerário do Opus Dei)

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Depoimento do Prof. Dr. R.R.M.

Caro J,

Desde já agradeço a oportunidade que você me está oferecendo de apresentar aos seus leitores algumas idéias que passam pela minha cabeça em relação ao que tem rolado sobre a Obra e a desistência de alguns numerários na tua lista de e_mails.

Longe de mim a intenção de provocar celeumas ou defender quem quer que seja dos erros que tenha cometido (entre outras coisas porque o erro é um mal e, como tal, segundo o que aprendi de São Josemaria, o mal se vence com abundância de bem). Apenas desejo apresentar, no mais puro espírito de liberdade que caracteriza a net, o meu ponto de vista.

PREMISSA: Deus existe [1]. Além das características que se lhe costumam atribuir (eterno, todo-poderoso, criador do céu e da terra...) eu gostaria de destacar mais duas: atencioso e providente. Conseqüência: diligentibus Deum, omnia cooperantur in bona (tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, que vou passar a abreviar, com o nosso Padre, por “omnia in bonum”).

RESUMO: Nos meus 31 anos de Opus Dei passei por muitas alegrias [2] e algumas (sem dúvida muito menos freqüentes) tristezas. Entre estas, algumas dificuldades de relacionamento com diretores[3]. Em alguns casos creio mesmo ter sofrido injustiças [4]. Só que não as atribuo à Obra e sim à condição humana posterior ao pecado original em que os homens se mal-tratam uns aos outros, umas vezes por maldade e na maioria delas por incapacidades ou insuficiências pessoais. Misteriosamente Deus se aproveita até disto para o nosso bem. Repete-se em relação à Obra (que São Josemaria caracterizava como uma partezinha da Igreja) o que acontece com a nossa Santa Madre: ela é Santa, apesar de nós.

Acredito que em todos os casos em que me julguei injustiçado ou achei que alguém estava sofrendo uma injustiça ao meu lado, dei ciência dos fatos aos diretores superiores a mim (ou ao cara concreto de que se tratava) e, se de alguma coisa me arrependo, foi das vezes em que não o fiz.

Estas coisas não acontecem só na Obra. Acontecem também nas famílias [5], nas milícias [6] e em todos os agrupamentos humanos (como por exemplo no ambiente profissional [7]). Em todos estes casos, se analisados com fé sobrenatural, pode-se sempre concluir que “omnia in bonum”.

CONCLUSÃO: As conseqüências de qualquer fato podem ser vistas de modo humano ou sobrenatural segundo se tenha fé ou não. Esta fé aplicada ao dia-a-dia era o que o nosso Padre chamava de visão sobrenatural, se não entendi mal o seu pensamento.

Mais uma vez obrigado pela oportunidade que você me está dando e pela paciência dos que tiverem me seguido até aqui.

Abraços,

R.R.M

  1. Durante muito tempo estive procurando “provas” da Sua existência, analisando as vias de São Tomás, e outras e tentando convencer amigos e “inimigos” do meu ponto de vista. Atualmente me sinto mais identificado com o que diz Raniero Cantalamessa em “A Vida em Cristo”, pg.55 das Edições Loyola: “No fundo, trata-se de dizer simplesmente um “sim” a Deus. Deus criou o homem livre para que pudesse aceitar livremente a vida e a graça; aceitar-se como criatura beneficiada, “agraciada” por Deus. Ele só esperava o seu “sim”; em vez disso recebeu um “não”...Claro que, tudo isto, sem prejuízo do “per ea quae facta sunt” de São Paulo...
  2. Por exemplo, tive a honra (e a graça) de fazer parte do grupo que começou o trabalho da Obra no Rio e assisti de cadeira o derrame de graças que isto significa. Outras grandes alegrias senti quando algum amigo entrava para a Obra como membro numerário ou super numerário.
  3. Para falar a verdade acho que poucas vezes me entendi perfeitamente com os diretores dos Centros em que vivi. Donde concluo que boa parte do problema (mas eu não diria que todo ele) está em mim e não neles. Graças e Deus eu vivi com o Antonio Cintra na velha Vila em 1974 e atualmente moro em Niterói cujo diretor é o Sílvio Almeida.
  4. Por exemplo quando, em 83, montei uma sociedade informal com dois amigos que posteriormente entraram para a Obra como membros super numerários. Ao tentar formalizar a sociedade o diretor da ocasião não entendeu que, de fato, a gente já estava trabalhando junto havia mais de um ano e disse que não poderíamos formar a sociedade para não passar para terceiros a impressão de que as pessoas da Obra se ajudam na vida profissional. Nós resolvemos acatar a indicação. Desfizemos a sociedade de fato. Um dos meus sócios foi para a Argentina fazer mestrado e o outro para os Estados Unidos fazer doutorado. Quando falei sobre isto com o Dr. Xavier ele reconheceu ter havido um erro mas acrescentou que, apesar disto, tinha sido a melhor decisão. Quando o Miguel voltou dos Estados Unidos foi trabalhar em Campinas onde conheceu a Maria Helena e os dois tiveram 4 crianças maravilhosas que a Upper Serviços de Software podia ter “atrapalhado”. Omnia cooperantur in bonum.
  5. Acho que o que não falta é exemplo disto para qualquer mortal com mais de 20 anos. Apenas para mostrar que eu sei do que estou falando, digo que meu pai sofreu o pão que o diabo amassou nas mãos da minha mãe. Eles se separaram e meu pai passou por mais duas experiências semelhantes. Creio que só voltou a ter paz quando resolveu passar a viver sozinho. Pouco antes de morrer em 97, graças à atenção recebida do pe. Teixeira, meu pai se confessou e, creio, pode estar no Céu atualmente. Omnia cooperantur in bonum.
  6. Pode parecer meio bobo citar um exemplo disto porque histórias tristes de casernas todos conhecemos muitas também. Trabalhei de 1980 a 1990, como professor civil da Escola Naval no Rio. Quando comecei a trabalhar lá, o diretor da Escola era o Alm. Aché, um homem a quem devo a mais profunda admiração, não só pela elegância que o caracteriza, como pela capacidade de se cercar de auxiliares da mais alta qualidade. Infelizmente ele não ficou na Escola para sempre e, depois de alguns anos, foi sucedido por outro almirante que, no primeiro dia na ilha de Villegagnon, reuniu todos os oficiais e professores no cinema da Escola e disse que ia diminuir a carga horária de aulas dos aspirantes porque “na época dele, estudava-se menos”. Confesso que não levei a sério o que o homem disse porque o argumento dele não me pareceu sério (ele tinha feito o curso havia mais de trinta anos e o mundo tinha mudado “um pouquinho” durante este tempo). Só que a Marinha é uma instituição hierárquica e “o que vem de cima não se discute”. O cara começou a cortar disciplinas e dispensar o pessoal que passava a “sobrar”. A minha vida profissional deu uma cambalhota para trás (imagino a dos que foram “dispensados”). O que eu estava fazendo ali, ensinando os futuros oficiais a mexerem com antenas e microondas, se, de repente, chegava um cara e podia dizer que isto não interessava? Felizmente, na mesma época, abriu-se um concurso para a minha área na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, graças a Deus, (acho que só eu sei o quanto esta expressão é verdadeira neste caso) acabei encontrando um porto melhor para estacionar a minha barquinha. Posso garantir que me identifico muito mais com a formação de Engenheiros do que com a de oficiais de Marinha de uma guerra que não se sabe se vai existir...(tomara que não exista, é o que todos os militares dizem, e eu também, ainda que por motivos um pouco diferentes). Omnia in bonum.
  7. Aqui eu não vou citar outro exemplo. O anterior serve para o caso das milícias e ambientes profissionais... [S/N] Para aqueles que tiveram a paciência de me acompanhar até aqui, uma jóia: Se perdes o sentido sobrenatural da tua vida, a tua caridade será filantropia; a tua pureza, decência; a tua mortificação, bobice; as tuas disciplinas látego; e todas as tuas obras estéreis (Caminho, no. 280)

Comentários, réplicas e outros, relacionados ao assunto

Comentário do Dr.H. ao depoimento de R.R.M.

Em resumo, Prof. Dr. R.R.M.diz o seguinte:

  1. Se houve erros e injustiças na Obra, a causa não é da instituição mas o erro individual das pessoas que a integram.
  2. Deus utiliza até destes erros para realizar o bem.

Enquanto eu estava na Obra, ouvi repetidamente estas idéias. O interessante é que adotando essas idéias como premissas, a conclusão a que se chega é que a Obra não pode ser responsabilizada por nenhuma injustiça cometida no passado ou que venha a cometer no futuro.

Vejo pelo menos dois erros de raiz no Opus Dei, que não podem ser atribuídos a esta ou aquela pessoa, mas à instituição em si. São erros racionalmente inconsistentes e que portanto não podem ser "engolidos" nem com a mais pura visão sobrenatural.


1) O primeiro erro é que Opus Dei não assume responsabilidade pelas suas ações. Aliás, Opus Dei não assume nenhuma decisão (ou quase nenhuma) como sendo sua. A responsabilidade seria das pessoas individuais.

Se Opus Dei estivesse decidida a reparar os erros que cometeu, a sua atitude deveria ser a de investigá-los, reconhecê-los, repará-los e tomar medidas para que não se repitam no futuro. Ora, a Obra não faz nada disso, mas simplesmente diz àqueles que se queixam das injustiças sofridas para que tenham "visão sobrenatural", e "omnia in bonum". O fato das mesmas injustiças se repetirem com muitas pessoas diferentes ao longo de várias décadas comprova que a Obra não as encara como erros, mas faz parte essencial do "espírito" do Opus Dei. Também costuma atribuir os erros às pessoas que eram diretores na época (algumas das quais não são mais da Obra, não moram mais no Brasil, etc. e que portanto não têm como se defenderem das acusações).

Qualquer um que tenha sido numerário por algum tempo sabe que muitas ordens de um secretário não são decisões dele, mas do diretor. Da mesma forma, muitas ordens do diretor não são decisões dele, mas da comissão regional. Apesar disso, o secretário ou diretor apresenta a ordem como sendo dele. Assim, Opus Dei como instituição se esconde atrás das pessoas de hierarquia inferior para não assumir a responsabilidades das suas decisões e ações.

Vamos tomar um exemplo. Digamos um numerário N (que é professor universitário) do Centro de Estudos esteja escalado para ir ao "curso anual" desse centro que costuma ser em julho (digamos, de 1 a 27 de julho). As aulas na universidade terminam em 30 de junho, mas o numerário N deve aplicar a prova substitutiva, corrigir as provas, estar presente na revisão das provas e afixar as notas depois dessa data. Algum diretor C da comissão regional decidiu que para o "bem espiritual" de N, seria melhor que ele esteja presente durante todo o curso anual, que esteja desprendido do seu trabalho profissional, que demonstre o seu amor à Obra sacrificando-se, etc. O diretor central C comunica ao diretor local L (o superior imediato do numerário N) a sua decisão. L ordena ao numerário N que peça a algum outro professor tomar a conta da prova substitutiva, que leve as provas para corrigir ao curso anual, que fique acordado durante a noite para corrigir as provas (pois não há tempo "nem para amarrar o cordão de tênis" durante o curso anual), que volte de ônibus no dia da revisão de provas carregando um pacote enorme de provas, etc. O numerário N está obrigado sob contrato que fez ao entrar na Obra a obedecer ao seu superior L. Assim, ele é obrigado a participar do curso anual desde o início, contra a sua vontade e contra o bom senso. O numerário N diz ao chefe do departamento que ele irá tirar as férias a partir de 1 de julho de qualquer jeito, ignorando os seus deveres de professor.

O responsável aparente por essa decisão absurda é, aos olhos da universidade, o numerário N. Aos olhos do numerário N, a ordem partiu do diretor local L (L mesmo diz a N que ele tomou essa decisão depois de fazer oração diante do santíssimo). Porém, na verdade, L está simplesmente obedecendo ao diretor da comissão regional C (aliás, L está obrigado pelo contrato a obedecer a C). Assim, o diretor da comissão regional C não assume a responsabilidade pela ordem antipática e que prejudica o trabalho profissional de N. Aliás, se o numerário N se queixasse mais tarde, L e C diriam que N agiu por sua livre e espontânea vontade.

Pode-se inferir, pela forma generalizada como esta "tática" é usada na Obra, que algo semelhante acontece em todos os níveis hierárquicos da Obra. Conseqüentemente, podemos afirmar que a Obra é uma instituição não assume a responsabilidade pelas suas decisões e ações.

Outro fato que reforça esta hipótese é que a Obra não deixa com numerário nenhum documento por escrito. Assim, o numerário não fica com nenhuma prova escrita das coisas que teve que fazer pela obediência. Isto é uma outra forma da Obra não assumir a responsabilidade das suas ações. O numerário doa todo o seu salário para Opus Dei e fica sem nenhum documento da doação que fez.

Retomando o exemplo acima, se o numerário N pedisse a diretor local L que assinasse um documento assumindo a responsabilidade pelas conseqüências de não fazer o seu trabalho profissional como se deve, ele seria taxado como tendo mau espírito, que no Opus Dei tudo se faz na base da confiança, que olhe as coisas do ponto de vista sobrenatural, etc.

A obrigação de consciência do numerário de obedecer ao seu superior é martelado diariamente nas palestras e meditações. Diz-se que os conselhos do diretor vêm de Deus. Muitos numerários acabam com problemas psicológicos, insônias, depressão, pesadelos freqüentes, etc., forçando-os a tomar remédios tranqüilizantes e anti-depressivos (coisa que graças a Deus não aconteceu comigo). Acredito que a raiz destes problemas está na discordância entre o que um numerário acha, raciocinando com a sua inteligência, que deveria fazer e o que os seus diretores mandam que ele faça, mandato que na consciência do numerário tem a obrigação religiosa. O fato da Obra estar causando tantos problemas psicológicos a tantas pessoas não se pode se reduzir a "omnia in bonum", mesmo com a melhor visão sobrenatural.


2) O segundo erro de fundo do Opus Dei é colocar todo o seu "espírito"como procedendo de Deus. Opus Dei ensina que o seu fundador teria recebido o "espírito do Opus Dei" por iluminações e inspirações de Deus. A conseqüência lógica desse fato é que todo o "espírito do Opus Dei" seria infalível, pois procederia diretamente de Deus.

Eu não descartaria a possibilidade de que Deus tenha iluminado S.Josemaría de alguma forma. Porém, nem a Igreja Católica diz que tudo que ela vive recebeu de Deus. Por exemplo, diz que o celibato sacerdotal (um costume santo) não é algo ordenado por Jesus mas é algo que se viu ao longo da história como algo conveniente.

Opus Dei não faz distinção entre o que é essencial no seu espírito daquilo que são acessórios. Isto tem várias conseqüências práticas que posso escrever numa outra ocasião. Omnia in bonum?

Comentário do Dr.G.P. ao depoimento do Prof. Dr. R.R.M

Olá, todos! A propósito da mensagem de Ricardo Romberg (carregada de um providencialismo radical), caberia acrescentar que o trabalho de crítica ao Opus Dei que começa a ser feito no mundo e no Brasil faz parte, sim, de um verdadeiro omnia in bonum.

Começa-se a fazer uma crítica cristã ao Opus Dei, uma crítica não mais baseada em reclamações genéricas contra cilícios ou contra o famoso título de Marquês, mas uma crítica concreta, fundamentada na experiência viva de pessoas reais. Pessoas que foram massacradas por um espírito tacanho, por uma incompreensível vontade de matar a criatividade e a alegria de quem entrou na Obra imaginando ali encontrar espaço para realizar, com liberdade e responsabilidade, os mais nobres sonhos de santidade e apostolado.

Recentemente, no dia 8 de outubro, o numerário Francisco Baptista, eu e Eduardo Gama, meu compadre, almoçamos juntos, por mero acaso. Entrei no restaurante, me dirigi até eles e os cumprimentei, mas não queria sentar-me à mesa. Francisco, no entanto, insistiu que eu sentasse e, a uma certa altura, ironizando, disse a Eduardo Gama: “Você vai agora ter a sua direção espiritual, mas cuidado para não te fazerem a cabeça!”. A conversa concentrou-se no tema “Opus Dei”. Durante a acalorada discussão, pude ouvir a opinião de Francisco sobre os episódios que culminaram na minha saída dessa instituição, há 5 anos.

Tendo Eduardo Gama como testemunha, Francisco admitiu que foram cometidas, contra mim, naquela época, de maneira consciente e articulada, inúmeras “cabronadas” (sacanagens) por parte de destacados membros do Opus Dei, legitimamente constituídos autoridades e representantes da Prelazia, a saber: Pe. Vicente, Emérico da Gama, Luiz Eduardo Meira, João Malheiro, Josemaría Córdoba, Dr. Pablo González, entre outros.

É importante enfatizar que Francisco atribui essas “cabronadas” a um “conflito de gerações”, que, agora, segundo ele, está sendo superado, à medida que aquelas pessoas estão sendo substituídas — e, acrescento eu, agora que as dezenas de vítimas do tal conflito já foram embora.

Tal interpretação nos levaria a pensar que o Opus Dei no Brasil finalmente está se renovando e superando um longo período de desmandos (mais de 30 anos), omitidos nos relatórios enviados a Roma, deturpados pela retórica burocrática. Tomara que a nova direção do Opus Dei (que, no entanto, foi indicada pela antiga...) continue nessa trilha de humildade, e até, por uma questão de honradez, procure aqueles cuja vida na Obra foi infernizada pelos antigos déspotas, peça-lhes perdão pelos erros cometidos (erros cometidos por pessoas identificadas com a Obra, que estavam e ainda estão plenamente seguras de seguir o espírito da Obra mais do que ninguém) e pergunte como pode reparar os dados morais, psicológicos, espirituais e materiais ocasionados por esses erros.

Não percamos a esperança, não é? Omnia in bonum...

G.P.

Comentário adicional do Dr. H. ao depoimento do Prof. Dr. R.R.M

Queria acrescentar somente um exemplo a mais no meu comentário sobre o depoimento do Prof. Dr. R.R.M., que mostra bem como o Opus Dei não assume responsabilidade pelas suas ações.

Afinal de contas, a Editora Quadrante é ou não é do Opus Dei? Todas as pessoas envolvidas (ou que estiveram envolvidas no passado) com a Obra no Brasil sabem que os membros do Opus Dei fazem propaganda ativa dos livros de Círculo de Leitura editados pela Quadrante. Todos os membros do Opus Dei tiveram durante muitos anos metas de venda de Círculo de Leitura (acredito que ainda têm). Por outro lado, o Opus Dei diz que a Editora Quadrante e Círculo de Leitura são iniciativas profissionais de algumas pessoas individuais da Obra. Se a Quadrante não é do Opus Dei, como é que todos os membros têm metas de venda de Círculo de Leitura? Este é um exemplo típico de como Opus Dei não assume as responsabilidades das suas ações. A Obra quer obter as vantagens de ter uma editora sua, sem ter que assumir as responsabilidades pelos problemas que isso pode trazer.

E quanto ao Colégio Catamarã? Alguém poderia me informar se a Obra está usando a mesma "tática"?

Um "Abrir de Coração" do Cooperador Elie Chadarevian

Caros,

Sou Elie Chadarevian, há cerca de 5 anos um simples cooperador da Obra (freqüento o Centro da João Cachoeira). Sou também diretor da Igreja Armênia Católica de São Paulo, onde colaboro diretamente com nosso Bispo Exarca para a América Latina: Dom Vartan Waldir Boghossian.

Gostei da idéia de discutirmos abertamente aspectos da Obra, como o Colégio Catamarã. Acho que soma para a Obra que todos tenham iniciativas e as discutam livremente. Afinal, na Obra, nos consideramos em família e o que segue é um "abrir o coração" de minha parte, e como tal espero pareceres sinceros, e por que não, admoestações fraternas se for o caso.

Em um dos convívios de que participei neste ano de 2003, uma das palestras foi do Sr. Sérgio Carinhato que falaria sobre apostolado. Após uma rápida e interessante introdução sobre as necessidades de práticas de apostolado dos membros da Obra, ele citou como exemplo a iniciativa do grupo que fundou a Escola Catamarã. Para surpresa e, vou ser sincero, aborrecimento meu, aquilo que era para ser uma palestra sobre apostolado, passou a ser uma propaganda do Catamarã e, mais que isso, um "passa chapéu" onde o Sérgio explicitamente pedia colaborações financeiras, doações de materiais para construção, etc. , para as obras de expansão da Escola. Não faltaram apelos emocionais à consciência dos pais para matricularem seus filhos naquela escola. Já aborrecido (afinal, eu estava ali investindo meu tempo e dinheiro (que são escassos) para ouvir palestras edificantes, e me vem um falando dos problemas administrativos na condução de sua escola e, não satisfeito, ainda pedindo dinheiro para sua continuidade, pedi então a palavra:

[e] Carinhato, não há outra forma de auxiliar que não seja em dinheiro ou material de construção?
[s] Há sim, existem muitos que colaboram com seu tempo, dedicando-se à escola, quem quiser colaborar basta ir até a escola para conversar.
[e] A escola tem por objetivo apenas a formação dos alunos, ou visa também o lucro?
[s] A escola visa lucro, é uma iniciativa particular, mas está dando prejuízo, por isso que precisamos de ajuda.
[e] Em média quanto paga hoje cada aluno?
[s] R$ 1007,00, mas temos muitas despesas com o corpo do docente e também há royalties a serem enviados para a Fomento na Espanha...

Nisso, um dos ouvintes sugeriu que se procurasse a prefeitura de São Paulo, que tem um programa de apoio financeiro às Escolas particulares, mas o Sr. Carinhato descartou a idéia dizendo ser muito burocrático. Confesso que fiquei ainda mais aborrecido; ora, pensei com meus botões, quer dizer que levantar a bunda da cadeira para procurar recursos na prefeitura ele não vai, mas vem aqui pedir para a gente, legal ele...

A palestra continuou com exemplos não convincentes das vantagens de sua forma de ensino (por exemplo, o Sr. Carinhato se orgulhava de como convencia seu filho a fazer as tarefas em troca de figurinhas) e ao final falou-se numa "força tarefa" para salvar o Catamarã, quando alguns pais que têm filhos lá, e que também participavam do convívio, deram seu testemunho de como seus filhos têm se comportado "exemplarmente" depois que passaram a freqüentar o Catamarã. Mas achei que tudo era um tanto quanto rígido demais: horários para tudo, responsabilidades com a ordem, organização e deveres domésticos e escolares, etc.... sei lá, no discurso parece muito bom mas fiquei me perguntando o que seria daquelas crianças quanto chegassem à idade adulta... Bom, pegaram o e-mail daqueles que quisessem colaborar e ficaram de marcar um encontro para nova discussão sobre a escola e atividades dos familiares; e fazer um evento.

De fato, depois de algum tempo recebi o convite para um evento no espaço SESC Cultural, onde seria lançado o programa de extensão das classes oferecida pelo Catamarã, abrangendo todo o ensino fundamental (o equivalente à nossa época do "primário e ginásio"). Neste evento, apesar de não concordar com a separação entre meninos e meninas e ainda uma brincadeira de mau gosto (uma senhora, estilo sargentão, contava sua aventura com uma criança de 8 anos que fazia bagunça na aula; depois de uma seqüência de etapas de lógica formal, a criança havia se rendido e concluído que não deveria fazer bagunça na aula, "afinal, seria burrice dela já que estava pagando tão caro pelo seus estudos..."), saí mais bem impressionado e disposto a ajudar o Catamarã no que estivesse ao meu alcance.

Houve, então, uma convocação para uma reunião no Centro da João Cachoeira onde, num Sábado, das 16 às 17:30, se discutiriam iniciativas de apostolado, entre elas o Catamarã, Escola de Pedreira e Centro de Extensão Universitária. Presentes à reunião, que eu conhecia e pelo que me lembro, estavam o Dr. Pablo, o Dr. Félix, o José Maria (Chema), o Gaspar, o Sérgio Leal , o Francisco Batista, o Gilberto Alves, o Álvaro Bento (da Escola de Pedreira), o Sérgio Carinhato, mais outros numerários e super-numerários, num total de cerca de 40 pessoas. Eu estava meio confuso: na palestra do convívio o Carinhato tinha dito que o Catamarã era iniciativa particular, mas então por que todos aqueles numerários envolvidos, a reunião num Centro da Obra, juntamente com a Escola de Pedreira e o Centro de Extensão Universitária (estas duas últimas sim, iniciativas assumidas da Obra)?

Comecei a achar que o Catamarã também era coisa da Obra, mas depois fui esclarecido que não.

Bem, infelizmente o discurso do Sr. Sérgio Carinhato mais uma vez fez uso de argumentos muito frágeis para justificar algo hoje tão discutível como a discriminação de sexo (acho que isso é contra lei, não é? Algum advogado poderia me esclarecer a respeito?), separando nas escolas os meninos das meninas, e quando passou então a pedir dinheiro novamente, solicitei a palavra e questionei sobre seus argumentos, foi quando o Álvaro Bento interveio e disse que também em Pedreira a escola é só masculina (pensei comigo, uma coisa é escola só masculina, outra coisa é escola que atende ambos os sexos, mas os mantêm separados) e acrescentou que um aluno que repita de ano duas vezes é jubilado da escola. Surpreso disse ao Álvaro que temia pelo futuro de uma criança que na adolescência sofria tal trauma, mas a questão no momento era sobre o Catamarã, sobre a Pedreira se falaria mais tarde. Um senhor então deu sua opinião dizendo que achava ser um regime ditatorial o que se propunha na escola, e que estaríamos formando novos Hitleres com seus campos de concentração. Um outro me interpelou o que eu estava fazendo ali se não tinha filhos, respondi que tinha tantos filhos quanto os numerários ali presentes, mas ainda pretendia casar-me e ter filhos, com a Graça de Deus. Nisso interveio o Dr.Pablo e explicou que a proposta do Catamarã era aquela, assim como se oferece num barzinho café expresso, com chantili, capuchino etc., ali também o que se estava era apresentando uma forma de ensino, a quem aprouvesse muito bem, e a quem não aprouvesse estava em lugar errado. Notando que eu estava sobrando no local optei por me retirar, mas antes precisava esclarecer uma dúvida: afinal, o Catamarã era ou não era iniciativa da Obra? A resposta do Pablo foi, não, o Catamarã não tem nada a ver com a Obra, é uma iniciativa particular, o que gerou um grande "borburinho" na sala, foi quando o Dr. Pablo, para decepção minha e de muitos, declarou em voz alta para acabar com a conversa paralela: "Pessoal, para vocês terem uma idéia, EU sou um produto deste estilo de escola", pensei com meus botões: "Napoleão não teria feito melhor ao se auto coroar", sem dúvida que o Dr. Pablo é uma "figuraça", suas aparições são sempre "filé", mas daí a ele estar, como dizem, "se achando", vai uma grande distância.

Bem, pedi desculpas pela presença lá, me desculpei e saí... veio ao meu encontro o Gilberto dizendo para eu não ficar chateado, ao que lhe expliquei os motivos da minha intervenção na sala, e alguns minutos depois veio o Dr. Pablo gritando alguns palavrões e me dizendo que não o levasse a mau, que estava dizendo tudo aquilo porque sabia que eu era seu amigo e não deixaria de falar com ele por causa disso; de fato, continuo amigo do Dr. Pablo, nada tenho contra ele...

Desculpem o longo e talvez rebuscado mail. Apesar do esclarecimento do Dr. Pablo, ainda continuo na dúvida devido à prática não condizer com a teoria: se o Catamarã não é da Obra, por que tantos numerários envolvidos? Por que os cooperadores somos convocados a colaborar?

Abraços,

Elie

Antonio Henrique tenta explicar

Olá a todos

Sou Antonio Henrique Selvatici, e era numerário na Obra até a metade deste ano. Apenas para tentar esclarecer o Sr. Elie -- na verdade, o assunto é confuso mesmo, acho que nem eu entendo direito: parece-me que o Catamarã, que até então foi apenas uma iniciativa isolada de alguns pais que são amigos da Opus Dei, vai se tornar um "colégio da Obra que não é da Obra". Iniciativas assim, como a Quadrante ("uma editora da Obra que não é da Obra"), são conduzidas por membros ou pessoas muito introzadas na instituição, mas não possuem a garantia formal da Prelazia a respeito da formação que ali se oferece. Mas são iniciativas totalmente apoiadas pelo governo regional da Obra, que "convida" (cada um entenda como quiser) muitos de seus membros para atuar nelas. Iniciativas como a Pedreira e o Centro de Extensão são já Obras Corporativas: elas não pertencem à Prelazia, mas possuem garantia formal do Opus Dei, que se compromete a dar formação segundo a sua própria espiritualidade e a mantê-la. Talvez o Catamarã passe a ser um dia Obra Corporativa -- nada impede.

Poderíamos discutir longamente a respeito do modelo de ensino em escolas da Obra. Mas temos que convir que o modelo educacional vigente também não é lá essas coisas. Além da falta de educação reinante no ambiente das escolas por aí, parece que que se procura cada vez mais afastar termos como "responsabilidade", "imputabilidade", "autoridade", "previdência", etc. do vocabulário dos alunos e se preocupar mais com "não traumatizar". A educação sexual se tornou uma mera formalização das informações que os garotos já têm a respeito do mecanismo do ato copulativo, além de uma propaganda deslavada de métodos contraceptivos: compre, aprenda a usar. Não precisamos transformar nossos adolescentes em "máquinas de regrinhas", mas consentir em que eles achem tudo isso normal é omitir a ajuda necessária à formação da sua liberdade.

Um abraço a todos

Antonio Henrique

Paulo Roberto dá sua opinião

Senhor Elie,

Em nome do livre debate sobre o Opus Dei ao qual você se refere, quero cumprimentá-lo pelo retrato que fez da Obra com seu longo e-mail. Não queria ler, mas suas palavras me prenderam a atenção e me fizeram lembrar das "velhas figuras" que, pelo jeito continuam exatamente as mesmas de anos atrás. Quem está escrevendo estas palavras é um ex-numerário que entrou para o Opus Dei ainda na década de 60. E saiu de lá na década de 90.

Valeu! Desde que saí nunca mais toquei no assunto Opus Dei. Acontece que tenho recebido inúmeras mensagens de descontentamento que me levaram a refletir um pouco.

Acho que o Opus Dei - e com ele todas as figuras carimbadas que você citou - jogam um jogo estranho que não é normal para as pessoas normais. Montaram uma fábrica perfeita - com ISO 9000, 9001, etc - de fazer gente maluca que, conforme me disse uma vez o tal de Pablo que você menciona, nem o próprio louco percebe que enlouqueceu. Não sei o que é esse negócio de Catamarã.

Quadrante até que me lembro do que se trata. Mas Catamarã não é do meu tempo. Esse negócio do Opus Dei promover uma iniciativa - Quadrante, Catamarã, Pedreira, etc, etc. etc.- e depois dizer que não tem nada a ver com ela, que é uma "iniciativa particular", isso é coisa de doido, de quem quer "usar" o nome e o conteúdo doutrinal da Igreja Católica Romana, mas não se compromete a fazer nela sua inscrição oficial. É coisa de doido e "bem pensada". Por que o Opus Dei não promove a minha empresa? Ela também é uma iniciativa particular. Esses caras são estranhos! Se você continua freqüentando, cuidado. Quem conhece sabe que o fundamentalismo é forte!!! E o diálogo é difícil!!

Abraço.

PRS