Depoimento do Prof. Dr. G. P. : como se vive a caridade no Opus Dei

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Ninguém sai da Obra sem uma razão proporcional, depois de nela ter vivido fielmente. No meu caso, ao longo de 13 anos, houve uma série de motivos que, analisados isoladamente, parecem pequenos e irrelevantes, mas, somados, acabaram por constituir um peso insuportável.

Primeiro, foram as "podadas" no campo das leituras (até livros de Machado Assis são objeto de reservas e proibições...). Essas "podadas" eram, de fato, uma forma de truncar iniciativas apostólicas na área da cultura e do ensino. Várias iniciativas minhas, que demonstravam liberdade profissional e criatividade pessoal, foram proibidas. Logo no início de minha vida na Obra, um diretor, FC, recolheu todos os meus livros e me obrigou (com a minha conivência, é claro, pois eu estava confiando plenamente que seria aquilo o melhor para mim...) a me desfazer de 70% deles.

Depois, incompreensões com relação a sentimentos e idéias. Na Obra, quem tem idéias próprias ou uma sensibilidade maior é literalmente massacrado, e obrigado a fazer coisas que "mortifiquem" essa liberdade. Por exemplo, obrigaram-me a fazer encargos materiais (consertar portas, limpar o pátio, limpar o esgoto etc.), quando eu pensava que a Obra poderia me "aproveitar" em tarefas para as quais eu tinha me preparado na juventude.

Num dado momento, senti-me sufocado por um ambiente de mediocridade intelectual, em que até mesmo querer conversar sobre temas que fugissem de assuntos superficiais como "futebol" e "comida" era visto como um ato de vaidade... Recebi várias "correções fraternas", que de fraternas não tinham nada, cobrando de mim a "humildade" de ser igual a todos...

Por conta desse clima, típico dos centros de universitários do Opus Dei, uma pessoa normal torna-se "anormal". Talvez porque eu fazia questão, escrupulosamente, de realizar tudo o que me mandavam, ainda que isso representasse um estupro interior (díficil de explicar num depoimento como este), fui visto como um "caso patológico" e necessitado de acompanhamento médico. Tomei durante 4 anos, por obediência ao meu diretor da época (João Malheiro) e por indicação do Dr. Pablo (numerário com especialidade em cardiologia), antidepressivos que, graças a Deus, não provocaram dependência, embora tenham deixado alguma seqüela. Até hoje tenho pesadelos diários com a Obra, em que apareço em situações constrangedoras, discutindo com gente insensível como EG, Fabio C., JC e outros, ou sou obrigado a aceitar que cada detalhe de minha vida seja comandado pelos diretores da instituição.

A gota d'água foi uma questiúncula que, no entanto, precipitou a minha decisão de deixar a Obra, sem sequer escrever uma carta de demissão. Haviam me pedido que traduzisse um folheto oficial explicativo do Opus Dei. Eu o fiz (achando que era essa uma forma de me "reintegrarem"), e esqueci do fato. Até que um dia, meses depois, o folheto foi efetivamente publicado, e dele, como tradutor, constava o nome de Guilherme Döring Pereira, outro numerário. Perplexo, procurei o Guilherme e perguntei-lhe se ele tinha traduzido o tal folheto. Guilherme, honradamente, disse-me que não, e que desconhecia o verdadeiro autor. Ele imaginava que teria sido algum sacerdote e que a Obra considerava conveniente que aparecesse o nome de um leigo. Para sua surpresa, eu lhe revelei que tinha sido eu o tradutor. Compreendi, então, que realmente não interessava mais à Obra que meu nome fosse associado à instituição. Se eles me tivessem avisado e dito que era melhor creditar ao Guilherme a tradução do folheto, por estar ele trabalhando no Apostolado da Opinião Pública, certamente, seguindo o hábito da "mentira piedosa" instalado na mentalidade dos membros da Obra, eu não teria reclamado, o que, mais cedo ou ou mais tarde, acabaria se tornando mais um "pequeno motivo" para sofrer.

Sem premeditar nem por um segundo, tomado pelo desespero, e depois de ter falado durante meses com todas as autoridades competentes (inclusive com Pe. Vicente, Vigário Regional da Obra no Brasil), em busca de alguma solução, e ter constatado que, para eles, afinal de contas, não existia nenhum problema, saí do centro da Obra em que estava morando, numa noite chuvosa de fevereiro de 1998, por volta da meia-noite. Levava comigo apenas três sacolas de supermercado, com algumas roupas. Sem dinheiro e sem saber para onde ir, ocorreu-me bater à porta do escritório de um amigo, que geralmente passava as noites em claro, trabalhando. Felizmente ele estava acordado e acolheu mais um "órfão do Opus Dei". Durante 3 dias, antes de conseguir outro local para morar (sem móveis e sem nada), dormi no chão daquele escritório. Curiosamente, ninguém da Obra procurou-me naqueles primeiros dias mais difíceis. Quando, mais tarde, ainda tive contato com Francisco Baptista, ele, "por caridade", me levou um pacote de bolachas, para que eu me sentisse apoiado...

Como no caso de tantos outros numerários, restou-me recompor a vida profissional, espiritual e afetiva sem nenhuma ajuda da instituição à qual tinha dedicado tantos anos, entregando-lhe, como numerário, todo o meu dinheiro e minhas possibilidades futuras. Num encontro fortuito, naquela altura, com outro numerário, Paco Pepe, este me perguntou se eles haviam me dado algum dinheiro para ajudar-me. Só nesse momento me dei conta desta possibilidade, que também não me foi oferecida.

Passaram-se cinco anos e, a duras penas, consegui reequilibrar-me como cidadão e como cristão. Quero com este pequeno relato alertar as pessoas para uma realidade. Conforme o dito popular - "por fora bela viola, por dentro pão bolorento" -, a imagem que o Opus Dei transmite não corresponde às injustiças absurdas que se cometem diariamente dentro desta instituição. Fico à disposição de quem quiser, pessoalmente, conversar sobre este grave tema, pois tenho consciência de que o que escrevi acima não consegue traduzir o período de solidão e angústia que passei lá dentro, especialmente nos últimos 6 anos, de 1992 a 1998. Meu e-mail para este assunto é: vicctor24@yahoo.com.br

G.P.