Depoimento de R.S., ex-sacerdote numerário: "o fundamentalismo é forte"

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Fui Sacerdote Numerário do Opus Dei de 1979 a 1993. Foram 14 anos "estranhos" na minha vida que não desejo para ninguém. Não quero discutir a problemática do "certo" e do "errado" sobre a minha passagem pelo Opus, menos ainda sobre a minha ordenação como Padre dentro da Associação. Penso que este é um assunto que hoje faz parte da história das minhas deliberações de vida e não vejo nenhum sentido uma discussão sobre decisões pessoais tomadas no passado. O que me surpreendeu foi a incapacidade dos dirigentes do Opus Dei para o diálogo aberto. Essa surpresa só acontece quando o membro do Opus Dei passa por uma fase de "crise", de questionamento mais aberto, de aspiração mais abrangente. É algo semelhante ao que conta Platão no "mito da caverna". Só é possível entender as limitações impostas pelas amarras das correntes dentro da caverna depois de ter saboreado, de alguma maneira, a luz do Sol fora da caverna. A analogia impressiona. Presos no interior da caverna por enormes correntes, mesmo tendo vislumbrado uma luz do lado de fora, alguns sentem - como diz Platão -, uma enorme dificuldade em sair para ver a luz lá fora. E aqui temos um problema sério: para os dirigentes do Opus Dei, o interior da caverna é a única opção.

No meu caso pessoal, não apenas o fato de ter entrado para o Opus Dei, mas, sobretudo, a ordenação foi uma corrente brutal que eliminou de vez as poucas luzes de mundo que me restavam. Minha vida tornou-se uma carga pesada. Põe "pesada" nisso! Numa explosão de insatisfação com tudo aquilo, resolvi mudar de vida e abandonar o Opus Dei e a condição clerical. Tal decisão não foi nada fácil. Menos ainda a sua execução. Num primeiro momento o problema era pessoal e interior. Depois, as dores da minha família, vendo o meu sofrimento, passaram a fazer parte do problema. Os dirigentes do Opus diziam: ficou louco! Chegaram a espalhar entre os outros membros da Associação que eu estava gravemente enfermo, psicologicamente doente, desequilibrado, anêmico, etc. E o pior disso é que muitos acreditavam.

Acho que os que continuam no Opus Dei ainda hoje acreditam na versão oficial de que eu "pirei". Felizmente estou ótimo. Ando pelo mundo afora respirando o ar puro da atmosfera natural e na luz que me vem do verdadeiro Sol. Minha sorte é que meus familiares acreditavam em mim e não neles. O radicalismo foi tal que, depois de inúmeras conversas na tentativa de se encontrar uma solução para o meu "caso", cheguei à conclusão de que a saída que me apresentavam era sempre a mesma: de uma maneira ou de outra, eu tinha que ouvir - não tem jeito, o teu lugar é aqui na caverna.

As conversas se prolongaram durante meses. Toda e qualquer solução era unilateral: permanecer na caverna. Esgotando todas as possibilidades de se encontrar uma saída amigável, aberta e respeitosa para com o Opus Dei e para com a minha aspiração de vida pessoal livre, tomei a decisão de me afastar da Obra por tempo indeterminado. Em breve essa decisão tornou-se, da minha parte, definitiva. Hoje estou casado e feliz com minha esposa e filha.

Não tenho nada contra quem quiser fazer sua experiência de Opus Dei. Mas uma coisa convém ter presente: o fundamentalismo é forte. As regras são rígidas e a abertura de realização livre é estreita.

R.S.