Artigo sobre o acidente de uma sobrinha minha

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Vicereifoz, 11.06.2008


Prometi escrever sobre o acidente de viação que tive, ainda no opus, em 1990, e em que veio a falecer uma sobrinha minha, com 7 anos. Aqui está o meu relato. Pretendo mostrar a falta de humanidade dos directores e agregados do meu centro, numa altura tão terrivelmente dramática para mim.

Ocorrem, em Junho, na cidade do Porto, em Portugal, as tradicionais festas em honra de S. João Baptista, que são celebradas em dezenas de locais da cidade. A freguesia onde nasci, a Foz do Douro, é um deles. Quatro dias antes das festas, resolvi ir jantar a casa dos meus Pais e, após o jantar, convidaram-me para ir dar um pequeno passeio a um jardim que fica junto do mar. Por ser início de fim-de-semana prolongado - era uma sexta-feira - também ali estavam quatro irmãos, três já casados, com as suas esposas e filhos. Que grande alegria para os meus Pais e para mim, porque nada estava combinado, juntarmo-nos tanta família!...

Os meus Pais, um pouco fatigados, pediram-me a dada altura que os levasse a casa. Acedi e, juntamente com eles, veio uma minha irmã e a sua filha Juliana. Entrámos no carro, um SEAT 127 já com alguns anos, que tinham posto no centro à minha disposição uns meses antes. Ao entrar numa rua, ligeiramente inclinada, havia um cruzamento a 200 mts. Após passar esse cruzamento, mesmo à entrada de nova rua, fui violentamente embatido, por trás, por um carro que vinha a alta velocidade. Senti a pancada e só dei por mim, passados alguns segundos, com o carro capotado. Os meus Pais, a minha irmã e eu nada sofremos – apenas ligeiros ferimentos sem gravidade. Mas foi difícil resgatar a minha sobrinha. Juntaram-se logo imensas pessoas no local, e não me deixavam aproximar-me. Fui na ambulância com ela até ao hospital. Pelo caminho rezava ao fundador, e outras orações que me vinham à memória. Demos entrada no hospital e, poucos minutos depois, veio ter comigo uma médica, com água e um calmante, dizendo-me que a Juliana acabava de falecer, em razão de um ferimento grave na cabeça. O restante já podeis imaginar. Logo se juntou ali toda a família, os que há poucos minutos tinha deixado, e outros já conhecedores do ocorrido.

Por ser fim-de-semana prolongado, só ao fim de cinco dias é que pudemos fazer o funeral da minha sobrinha.

Durante todo o sábado e o domingo, mesmo sabendo do ocorrido, nenhum, repito, nenhum dos então meus "irmãos" do opus esteve comigo. Apenas ao final da tarde de domingo telefonou-me o director do centro agd-Porto, Pedro F., para me informar duma tertúlia, com um director regional, após o jantar. Creio que seria para fazer número… E fui! Como não tinha dormido nada nesses últimos dias, passei todo o tempo a cabecear e, de vez em quando, quem estava ao meu lado dava-me um toque para eu acordar. A partir deste centro era desenvolvido o trabalho de sr no Mira Clube - Porto.

Após o funeral e porque tinha que participar a ocorrência à seguradora com a maior brevidade, tive que ir a Braga, para o numerário dono do carro assinar a participação. Com que meios? Ninguém do opus me ajudou: esse problema era meu. Por sorte, os donos da empresa onde trabalhava puseram à minha disposição, de imediato, uma viatura – a que fiz referência, em envios anteriores: ficou na garagem do Centro de Convívios de Enxomil (Em Valadares - Gaia), durante o curso anual desse mesmo ano: talvez por ser nova e estar apenas sob o meu "controle", "não convinha" ser usada. Foi assim que pude tratar deste assunto com a urgência devida. Recordo que o SEAT foi para a sucata, porque, pelos anos de uso e pelo seu estado, a reparação não era vantajosa.

Precisava então de um advogado. Falei ao dr. Jorge C. e S.,advogado e também agregado do meu centro. Fui ao seu escritório, com documentos e fotos, e pedi-lhe que tomasse conta do caso.

Recebeu-me cordialmente e aceitou. Fiquei descansado porque acreditava no seu profissionalismo. Como sabemos, estes assuntos não se resolvem de imediato, demoram o seu tempo. Em 1990, data do acidente, já tinha algumas dúvidas acerca da minha continuação no opus. O total desinteresse dos directores e dos agregados do meu centro pela morte da Juliana foi a gota de água que finalmente fez transbordar o copo. Deixei o opus em finais de 1991.

No final de 1992, já casado, recebi a notificação para o julgamento. Na posse desse documento, entrei em contacto com o advogado, que me pediu que fosse ao seu escritório com a máxima urgência. Lá fui, com a minha esposa. Faltavam três ou quatro dias para o julgamento. Com a maior frieza e displicência, comunicou-me que se tinha esquecido de tratar do meu caso.

O que fazer e o que dizer à minha família? Consultei vários advogados, que me aconselharam a ir a julgamento mesmo assim. Tinha-me preparado com fotografias, apresentado testemunhas e um parecer técnico, e assim fui a julgamento sem advogado.

Na minha resposta às poucas perguntas do advogado oficioso, aproveitei para clarificar algumas situações, repondo a verdade dos factos. Nesse mesmo dia ficou marcada a leitura da sentença.

Ficou apenas provado o excesso de velocidade do outro condutor, polícia de profissão. Não tive qualquer penalização, nem tão pouco apreensão da carta de condução. A minha irmã e o marido – a quem tinha dado toda a liberdade – tomaram a decisão de não recorrer.

Aqui fica este relato verídico, para que todos vejam, uma vez mais, o estilo de gente que nos rodeava, a sua elevada formação e o seu enorme profissionalismo!... Parece que as normas de decência não existem para os senhores do opus! Lá continuam, a praticar o "bem" e a caminho da "santidade"…

Deus, infinitamente bom, é pai e mãe e não dorme! Um dia será feita a Justiça Divina. Eu cá estou a lutar, com força e a ajuda de Deus, para levar a minha vida – e a da minha família – a bom porto.



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