A Naturalidade da Saia

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Quando apitei no final do ano de 1970 pensei que minha vida seria uma aventura... o que na verdade acabou acontecendo!

Naquela tarde fumei meu último cigarro e já não estava de calças compridas, pois no oratório do centro não se entrava de calças compridas para a meditação que seria no final da tarde.

Achava engraçado que as numerárias pedissem que as meninas de calças compridas ficassem atrás, fora do oratório quando ia começar a meditação... mas tudo se aceitava por respeito.

A naturalidade de ser numerária na década de 70 era algo impossível! Naquele ano o uniforme do colégio passou a ser calças compridas e eu continuei usando saia. As minhas amigas começaram a me gozar evidentemente.

Com a minha família a briga foi imediata. Eu não saía mais com ninguém para qualquer programa, inocentes programas daquela época, matinés dançantes, aniversários com bailinhos, etc... Até que chegou o carnaval que eu adorava! Passei a noite inteira com uma máscara horrorosa para não ser paquerada. Minha mãe queria me estrangular quando cheguei em casa mas consegui me safar na noite seguinte, apesar dos bons partidos que encontraria.

Em pouquíssimo tempo a guerra a minha volta era constante e em qualquer ambiente onde estava. Um dia tinha que ir ao clube de qualquer jeito, só que eu pensava dar uma fugidinha para o círculo breve no meio da tarde. Tive a idéia de enrolar na toalha de banho, uma saia... e quando minhas irmãs viram a minha armação caíram em cima de mim, contaram prá todo mundo e não fui ao círculo.

A perseguição continuava acirrada. Minhas amigas já não aceitavam minha mudança, eu já não fala a linguagem delas, a normal de uma menina de 16 anos. Quando as procurava e tentava um papo, deveria ser algo apostólico. Que naturalidade a minha ao obedecer cegamente e em tudo, afinal sabia que minha vida seria uma aventura.

Quando fiz a admissão meus pais me proibiram de ir ao centro e lá me disseram que teria que obedecer sim aos meus pais. Passei um ano até a oblação conversando com a diretora que me encontrava na rua uma vez para a conversa e outra para aulas de formação.

Fui ao centro para a oblação, consegui uma trégua da minha família que tinha picado todos os meus livros de leitura, acabado com todo relacionamento com minhas amigas contanto a minha transformação.

A realidade é que “vestir a camisa” era na verdade ”usar a saia” que marcava a presença da numerária onde quer que estivesse.

Quando soubemos que nosso padre viria ao Brasil, disseram que para contrastar com o ambiente, desceríamos mais o comprimento das saias. Eu fui fazendo as novas barras das minhas saias ‘as escondidas. Mandei-as ao tintureiro todas de uma vez para que saíssem as marcas das barras anteriores. Ganhei uma baita bronca da minha mãe pelo tamanho da conta que chegou para ser paga.

A técnica para usar as saias compridas diante da minha família era a seguinte: dentro de casa e com eles em qualquer lugar, eu enrolava na cintura para que ficassem curtas. Na rua e sozinha eu puxava para baixo e a saia ia ao joelho.

Hoje vejo como que o que se ensina na obra que se deve obedecer em tudo, me levara a fazer coisas ridículas.

Entrar num onibus ou num ambiente fechado era algo indescritível... todos naturalmente olhavam para a criatura normal e bem vestida até o joelho! Eu não deixara de ter vergonha, mas acabei me acostumando a fazer maquiagem todas as manhãs para ir à faculdade, pelo menos nisso não poderiam me chamar de freirinha (como o faziam meus irmãos em casa).

Aquelas que estudavam direito ainda gozavam contando nas tertúlias, que entre as colegas da faculdade que faziam estágio, ela podia ir direto ao Fórum que naquele tempo também proibia o uso de calças compridas.

Me lembro e agora me divirto, como era capaz de fazer cooper com uma amiga de sr apitável no Parque em Brasília, correndo de saia! Nem nos passava na cabeça usar bermudas para esporte por volta de 1985!!! E quando lá mesmo subíamos no telhado para desentupir as calhas depois da temporada da seca, ou para apanhar mangas no nosso jardim/quintal de 10m2, era de saia também

O natural da obra é ser igual entre seus iguais... Assim sempre teve tanta facilidade para fazer apostolado na sf, principalmente nos anos 70 e 80. A vocação de numerária nunca foi fácil uma vez que a mudança externa exige e muito, a transformação de hábitos normais em toda adolescente.

V.R.